domingo, 1 de fevereiro de 2009

Errante










Adormecida na criancice
Sonhos que adoçaram vontades
Todo possível na vã planície
Coroando felizes beldades.

Caminhava serena e crente
No ar árido sem atrito
Caí em poço indistinto
Em espera pelo herói valente.

Anos de perdição temente
Causa tamanho lamento
Que do maior sofrimento
Foi erro em paga crente.

Solidão que sempre amanhece
Encontrei-me nas piores sujidades
Que corrompem as espécies
Nas inadaptadas realidades.


01/02/2009

Rosa









Rosa sem espinhos
Que apoderaste meu ser
Por tão longos momentos
Para logo depois perder.

Como do teu cheiro
Em perfeitas formas
Não te equiparo
Às minhas vitórias.

Que em cumes pequenos
Despertaram um viver
Que sem requintes belos
Pulsionaram a percorrer.

Preferindo os carreiros
Doce aroma encontras
Flor de valores caros
Gentil quebra barreiras.

01/02/2009

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Artista








Quem não dá a boca ao mundo
Se cala à mundana miséria
D’uma alma só, encobria
Sentir o carpidar fundo.

Se envolvia no pincel amado
Traçando mundos de fantasia
Evadir-se da suja tirania
Vivendo num sonho ansiado.

Libertar as palavras do imundo
Vida em sentir difundia
Dor e glória dormia
Em traço vário e surdo.

Pois que o real num gemido
Anseia libertar a vitória
Que de luta inglória
É sublime artista elegido.

23/01/2009

Deus









Escutando em sinais
O vento que sussurra
O jogo de vogais
Que a mente segura.

A sol que iluminais
Abraço que ampara
Sonho que fortificais
Ventura a quem chora.

Agradecida do total
Embalada num ideal
Amigo de maior ternura.

23/01/2009

Por fim


Voz surda
Lágrima muda
Lava-me a alma
Arranca a chama
Que por fim apagou
Onde o sonho voou
Levando de mim
O pilar de marfim,
A esperança luzidia
A alegria fugidia
A palavra escondida
A valentia perdida.
Pois que sou pouco
Diante de ti, heróico
Mas de ilusão esperei
Doçura igual empenhei.
Ninguém por anos vive
De soluçares que contive
De suspiros sem ar
Sem poiso ou lugar.
Espera sem razão
Cega de coração
Pois só quem o possui
A sorte sorriu.
Condeno meus erros
Mil perdoes te imploro
Querer ter-te sem pedir
De um nada sorrir.
Sangra porque é golpe
Num peito a galope
Marcha lenta pacificada
Numa morte estimada.

22/01/2009

sábado, 17 de janeiro de 2009

Recordação









Sinto o teu cheiro
No ar disperso
No vazio companheiro
No silêncio intenso.

Chamo pelo teu nome
Praguejando recordações
Teu sorriso atrai-me
Para um abismo de ilusões.

Ansiado encontro
Por décadas submerso
Sentimento parceiro
Num suave repouso.

Sombra segue-me
Vulto de perturbações
Tua presença invade-me
Num ciclo de prisões.

17/01/2009

Futuro









Decai gravemente
Em surdo estalar
A rocha peninsular
A virtude a rasgar.

Olhai futuramente
Quem ocupa o lugar
Quem num cedo despertar
Esqueceu-se de voar.

Vazio embelezamento
Moral em coro profanar
E à decadência uno lutar
Sem um nada alcançar.

Amai perdidamente
Há ainda tempo a ocupar
Com boas obras triunfar
Com união, enfim, conquistar.

17/01/2009

Acreditar










Se acreditardes que podeis voar,
Nascer-vos-à asas prateadas angelicais.

Se acreditardes que o tempo vai perdurar,
Vereis tudo parar nas horas triunfais.

Se acreditardes que sois reis a determinar,
Coroa dourada em vós adornais.

Se acreditardes que possível à morte escapar,
Fecharás os olhos e verás quem mais amais.

Se acreditardes que anjos há a amparar,
Podeis crer que em obstáculo algum cambaleais.

Se acreditardes que no mundo há quem amar,
Verás diante de ti apenas seres celestiais.

Se acreditardes em vós, no vosso caminhar,
Sereis donos do sonho que por mérito guiais.

17/01/2009

Anjos











De igualdade velam
Os que penam em vida
Paz em gestos revelam
Comum grandeza escondida.

Vulgares, esquecidos,
Mendigos, vagabundos,
Vagos em aparência, despertos
Em toda-a-parte atentos.

Desvenda os que passaram
Por ti, alegria devolvida
D’um nada desapareceram
Sem razão, saudade sentida.

Nas suas asas envolvidos
Em viva-amor arrebatados
Seus olhares encobertos
Na crença da salvação, perfeitos!

17/01/2009

Eu não sei dizer








O silêncio deixa-me ileso,
E que importância tem?
Se assim tu vês em mim
Alguém melhor que alguém.
Sei que minto
Pois o que sinto
Não é diferente de ti.
Não cedo.
Este segredo é frágil
E é meu.
Eu não sei tanto sobre tanta coisa
Que às vezes tenho medo
De dizer aquelas coisas
Que fazem chorar.
Quem te disse coisas tristes
Não era igual a mim.
Sim, eu sei que choro,
Mas eu posso querer
Diferente para ti.
Eu não sei tanto
Sobre tanta coisa
Que às vezes tenho medo
De dizer aquelas coisas
Que fazem chorar.
E não me perguntes nada
Que eu não sei dizer...

Silence 4

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Vida Efémera


Luís de 35 anos, casado com uma bela, maravilhosa e virtuosa esposa, com três filhos, a Ana de 2 anos e o Rui de 4 anos, eram o antídoto de uma vida paralela, stressante e de esforço sem recompensa inesgotável, no seu local de trabalho – uma prestigiada empresa. Desejava ser o presidente daquela empresa, desejava-o tanto que fazia todos os possíveis para se destacar, mesmo que para isso tivesse de abdicar de alguns prazeres no seu tranquilo lar, junto dos que mais amava, dos pais que o continuavam a visitar festivamente e a amar incondicionalmente.
- Pai, quando terminas de fazer a casa de árvore?
- Pai, ajuda-me a fazer o presépio de Natal…
- Luís, vamos tirar umas férias no campo com os nossos filhos, todos reunidos, em Julho deste ano, como nos bons velhos tempos?
- Meu filho, aparece lá em casa… Eu e o teu pai morremos de saudades tuas…
As respostas de Luís apenas suscitavam tristeza, revolta, indignação, pois que ele para alcançar o seu alto sonho não tinha tempo para proporcionar Amor e Felicidade a ninguém. A casa de árvore nunca foi construída, o presépio de Natal, por vários anos seguidos, era enfeitada na sua completa ausência, as férias nunca chegaram a acontecer, nem os acampamentos, nem a praia, nem os prazeres mundanos oferecidos pela vida foram notados por Luís. Anos passados e tudo mudara sem que se apercebesse. De olhos sempre postos no trabalhos, fitos a um futuro que nem ele próprio sabia o que lhe iria proporcionar, não viu a Ana crescer, se tornar uma adolescente excêntrica e rebelde e mais tarde uma mulher linda, mas fútil… Não viu o filho Rui deixar de praticar desporto, ter uma auto-imagem de si negativa pelo aumento abrupto de peso; não viu o homem que se tornou, também ele trabalhando na empresa do Luís , casando-se e recusando gozar a lua de mel para puder trabalhar, seguindo cegamente as pegadas erradas do seu próprio pai que sempre lhe fora um exemplo dos vícios, da tortura do trabalho desenfreado e inconsciente, da cegueira aos que mais amava, às suas necessidades, motivações, emoções, atitudes, crenças… Não viu a sua esposa a lutar por um casamento que se tornara infeliz, onde passaram a imperar as discussões, a solidão, o egoísmo e incompreensão de Luís. Não reparou que não tardou o divórcio e que a sua tão amada Beatriz se casara novamente, tempos depois, com outro homem, a bem ver, mais atencioso. Não reparara que, com um estilo de vida agitado e pouco saudável se tornara obeso e que bastava um pequeno esforço para padecer numa cama de hospital, ligado a “máquinas”, sofrendo um ataque cardíaco irreversível.
Não tinha tido tempo para reparar que o seu pai morrera, nem tivera tempo para ir ao seu funeral… para a última despedida de todo o sempre… Reparou que se tornara uma pessoa fria, calculista, objectiva, prática, sem emoção, sem sentimentos visíveis. Tornara-se um robot interminável e o tempo passava por ele com indiferença. Tão absorvido estava a trabalhar, alheio ao mundo, aos seus pais, aos seus dois filhos, á esposa maravilhosa que perdera por sua recriação, que se deixou morrer.
- Luís, agora que olhas para trás e revês o teu passado, o tempo que não viveste humanamente, que me dizes de ti?
- Quem me dera voltar atrás no tempo e retomar o beijo doce da minha esposa, o aconchego dos abraços dos meus filhos, o olhar atento dos meus pais… Desejava ter tido alguém que me fizesse parar e ver que a vida não deve ser levada em completa absorção de uma só parcela daquilo que nos torna seres completos e totais. Que há brilho no ar a ser respirado, há sol para acalentar, há piqueniques entre família e amigos a fazer, há canções para se cantar, há música para se dançar, há anos para se desfrutar, há lutas por vencer, há caminhos a percorrer, mas que, com calma, cautela (para nunca nos perdermos de quem somos) e coragem, tudo se alcança. Que as vitórias só têm valor quando há alguém que nos é muito querido para nos aplaudir, sem artefactos. Perdi-me de mim, agora sei, mas já é tarde demais…
E VOCÊ?
01/01/2009

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Magia dos Sonhos


Cerrou os olhos e aconchegando-se no seu leito frio, sentindo em si, em apertos, dor imensa, soluçou as lágrimas que inesperadamente, ao seu ritmo, lhe lambiam as faces. Com esforço o sono venceu-lhe e viu-se desenhando, com traços imprecisos, incertos, duvidosos e receosos um rosto esfumado mas que da estranheza se revelava capaz de a fazer sorrir. Involuntária ao controlo das suas finas mãos, sentiu no seu âmago, no seu íntimo teimosamente enclausurado, uma ternura incompreensível pelo rosto em tela desenhado que ela completamente desconhecia. Perguntava-se quem seria, qual a sua existência (se existisse, de facto), se já o teria visto antes, o seu nome… apenas conseguiu como resposta o bater descompassado e incompreensível do seu peito. Sentiu-se estonteante e a custo extremo repousou-se no seu requintado assento macio e reviu-se, curiosa de si, no espelho oval diante dela. Que via? Seus cabelos loiros revoltos ondulando em cascata sobre os seus ombros magros cobertos pelo mais fino tecido daquela que era uma jovem donzela recatada. Acercou-se mais, atentou ao seu olhar, triste, e colocou a sua mão pequena gélida sobre um peito de uma alegria entristecida e duvidosa.
Batem à porta: - “Um senhor espera-a na sala principal, menina.”
Franziu instintivamente o sobrolho não acreditando no que o seu mordomo lhe dissera. Não eram comuns as visitas, ainda para mais um senhor. Quem seria? - “Como é possível receber esta visita num castelo onde só eu e a criadagem habitam, tão distantes do mundo e da civilização moderna?!”
De rompante, num misto de temor e ansiedade, desceu com gentil cuidado a escadaria de acesso à sala principal. Que viu? Um vulto de costas voltadas, com trajes de cavaleiro, postura firme e forte. Sentiu imediatamente um arrepio percorrer-lhe o corpo frágil, desejando com relutância, não descobrir o seu rosto. Antes que ela pudesse voltar-se de costas, ele rapidamente saudou-a com simpatia extrema, num sorriso sincero:
– Cara donzela, gosto em revê-la. Que bom aspecto tem!
Petrificada e sem forças para mover um só músculo, encarou-o com os seus olhos negros assustados e viu defronte de si a sua obra que nunca conseguira acabar de um semblante masculino, com iguais traços aos daquele que a presenciava.
- Não pode ser! – gritou assustada, enquanto a sua consciência se perdia do real demasiadamente duro. Desmaiou num corpo leve e inanimado.
Assustado, o cavaleiro Alexandre Albuquerque, num desespero aflitivo cobriu-a com cuidado nos seus braços e aos seus ombros a transportou para os aposentos da menina Lúcia, dirigido pelo fiel mordomo Alfredo, em braçadas de horror desesperado.
- Lúcia! Menina Lúcia! Anime-se por favor!
Por alguns instantes, a custo entreabre os olhos, não percebendo onde estava, o que sucedera, quem vira, o que a assustara, o porquê do seu terror. Sente então um deleite terno vindos dos braços fortes de alguém… Com a sua cabeça latejando, olhar turvo e rodopiante esforça-se para o encarar, aquele que sempre imaginara nos últimos dois anos em telas distorcidas guardadas.
- É você!!!
- Sim doce Lúcia. Já se recorda de mim?
- De facto não. Quero dizer, de forma tão precisa, não. Peço-lhe perdão!
Lúcia, embora cambaleante, perturbada e vacilante não conseguiu impor-se a si mesma deixar-se soltar daqueles braços que tão suavemente a envolviam. Porque se sentia tão dominada?
- Sou o Alexandre Albuquerque. Viajei há dois anos atrás… Batalhas infindáveis, mas sobrevivi. Queria ver-vos, Lúcia… Precisava vê-la! Soube que sofreu um grave acidente, se refugiou aqui, ficou desmemoriada longo tempo… Como desejava ter estado junto a si nesses momentos cruéis!
- Como me conhece?
- Cortejei-a meses antes de partir. Desejava desposá-la. Sempre gostei de si, Lúcia. Nunca a esqueci durante todo este tempo… toda esta distância.
Lúcia esboçou um sorriso feliz e abraçaram-se com ternura singular.

Acordou sobressaltada e lágrimas nos seus olhos se aglomeravam em relutante emotividade. “Querido Alexandre Albuquerque, sonho infinito, sonhar contigo é honra e apenas basta para acalentar meu coração. Queira Deus tua felicidade maior em braços de princesa. Perdoa-me pensar-te; receio ferir-te. Apenas em sonhos te procuro e à tua voz e presença verdadeira me calo aos separados destinos. Meu amigo…”


26/12/2008

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Ingenuidade Santa


- “Maria, minha doce filha, amor eterno, luz da minha existência, razão do meu viver, que sou eu sem ti?”
Maria, doçura genial, sorriso generoso e tímido, coração inocente, inteligência maior, formada em Medicina, no auge das suas 23 Primaveras, no dia de baile de finalistas, uma tontura a atormenta e cai sobre o chão. Desespero em gestos sua mãe para logo depois, já no hospital, lhe ser detectado um linfoma que a fez partir pouco depois dos primeiros sinais.
Mãe que muito a amava, divorciada e de loucura gigante pelo seu único e verdadeiro Amor, caiu em profunda e prolongada depressão, confinada a uma cama, num quarto sombrio, esquecendo-se de si, da vida lá fora.
Quem foste tu Maria, tão grandiosa?
Beleza rara, olhos de um verde cristalino, cintilavas e deliciavas a todos que de ti tiveram a feliz sorte de te conhecer. Rosto sereno, cabelos loiros caídos sobre seu rosto imaculado, eras tu a beleza humana feminina personificada.
Sua mãe, de igual bondade, sempre teve mais que verdadeiro Amor de filha – Maria era tudo o que na vida lhe fazia ainda algum sentido. Divorciada, vivendo peripécias tamanhas, ingratidão e traições, ela era não só filha, como amiga e companheira.
- “Maria, vou deixar meu trabalho mal termines tua formatura e junto contigo montaremos um consultório. Trabalharei sempre junto a ti, minha filha querida”.
Destino vagabundo impediu tal sorte. Mas porquê? Haverá razão? Sim, existe sim!
Maria, de 4 anos, sentada sobre a cama da sua mãe, aprecia com deleite extremo as fotografias de namoro e posterior casamento dos pais. De uma inocência, pureza, bondade e perfeição maior, diz: “- Meu pai é o homem mais lindo do mundo!”, quando afinal este, após o divórcio, não mais se preocupou com ela…
Maria, 5 anos, fora baptizada pela igreja segundo especial vontade da avó, crente e devota de Cristo e dos ditames da Igreja Sagrada. O pai e sua mãe não faziam menção de tal acto, dada talvez a sua menor fé ou até por considerarem que a religião não deve ser imposta pelos pais, mas sim pelo filho que em idade superior poderia optar. Ainda assim foi baptizada, para grande orgulho da avó que a vestiu de branco, cabelos loiros humildemente compostos, olhos verdes marinhos – um anjo à vista de todos! Tanto encanto emanavas, Maria!!!
Eis que o Sr. Pároco se acerca, sorri e lhe pergunta:
- Como te chamas, minha filha?
- Maria do Céu Vasconcelos.
- E que idade tens?
- Cinco anos, Sr. Padre.
- E por acaso sabes o que estás aqui a fazer diante de mim, diante de Cristo?
- Vou baptizar-me.
- Doce criança. Mas tu sabes o que isso significa?
- Sei sim, Sr. Padre. Passarei a ser irmã do Senhor.

Enternecido, o Pároco sorri satisfeito, surpreendido com a resposta de tal forma amadurecida.
- Minha querida, já sabes se em crescida vais estudar?
- Vou sim, Sr. Padre, vou sim!
- Mas para que fim? Já pensaste?
- Quero ser piloto de aviões.
Admirado, o padre retorquiu: - Mas porquê essa profissão? Podias desejar antes ser médica ou professora…
- Porque quero conhecer o céu, Sr. Padre.
Comovido e encantado, fica sem palavras, até que Maria prossegue com uma questão ainda mais espantosa:
- Sr. Padre, os pilotos podem ser santos?
O Sr. Padre, de olhar espantado, olha-a com ternura e responde: - Sim minha querida. Qualquer pessoa pode ser santo – um pedreiro, um calceteiro, um sapateiro, um agricultor, um ferreiro e até pilotos, médicos, juízes…
- Ai que bom Sr. Padre!!! É que se um piloto não pudesse ser santo, eu já não queria mais ser piloto de aviões!
Daquela tão leve, espantosa, honesta, deliciosa e ingénua conversa, o Sr. Padre apenas conseguiu tomar providencias, após a cerimónia, de chamar os avós de Maria à parte e lhes dizer: “- Nunca vi inteligência igual numa criança. É um anjo… já uma santa menina!”
Seu primo Pedro e Maria nutriam ambos uma amizade e união desigual. Pedro, criança esperta, perspicaz e brincalhão deliciava-se a contemplar o rosto da sua prima Maria dizendo, com apenas 4 anos, que: - “És tão bonita minha prima Maria! Pena seres minha prima, senão casava-me contigo!”, ao que ela apenas respondia com aquele característico sorriso tímido, brilhante, covinhas perfeitas nas maças do rosto: - “És tão tolinho, meu primo!”. Eram duas almas inseparáveis, assim como Maria era inseparável da sua amiga Teresa, duas verdadeiras irmãs unidas, não pelos laços de sangue, mas pelo Amor e pela bondade de coração que ambas possuíam.
Maria cerrou para sempre os seus olhos verdes ao mundo aos 23 anos de idade, mantendo até lá a grandiosidade e pureza inalterável por nenhum outro alguém. Seu rosto calmo, sensato, simples e incrivelmente belo em fotografias sempre recordada e por anos lágrimas derramadas pela avó, pela mãe que não suportou tal perda e desistiu de viver, e pelo seu primo Pedro que Amor outro e beleza igual noutro rosto feminino jamais encontrou.
Onde estás tu agora, doce Maria?
Zelando agora está pela sua mãe que lhe quis fazer companhia anos após o seu desaparecimento, como outrora o fez em vida, dando o ânimo e coragem que ela necessitou em momentos de maior fraqueza.
És a Santa que sempre sonhaste ser?

Sim, és! Santa pela pureza de feições, pela delicia de comportamento, pela doçura de coração, pelos nobres sentimentos, pela ingenuidade nunca perdida de uma criança que a cada dia sorri ao sol nascente, ao primeiro fruto da Primavera, à flor que humildemente te espreita. És santa para todos nós que te amamos, doce ser, mesmo que não te tenhas revelado a todos na tua curta passagem. És Amor! Vela por nós, Maria!

Clara Conde
16/11/2008

quarta-feira, 12 de novembro de 2008








Oh Clarinha
Olha as pombas
Vem não tenhas medo, não!
Porque as pombas,
Oh Clarinha,
Vão poisar na tua mão.
Tu gostas dos bichinhos todos
Da tartaruga ao canguru.
Já não sei quem é mais linda
Se são as pombas, se és tu!

Mozart’s 9th

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Morena dos Olhos D'Água









Morena dos olhos d’água
Tire os seus olhos do mar
Vem ver que a vida ainda vale
Um sorriso que eu tenho p’ra lhe dar.

Descanse em meu pobre peito
Que jamais enfrenta o mar
Mas que tem abraço estreito, morena
Com jeito de lhe agradar.

Vem ouvir lindas histórias
Que por teu amor sonhei
Vem saber quantas vitórias, morena
Por mares que só eu sei.

O seu homem foi-se embora
Prometendo voltar já
Mas as ondas não têm hora, morena
De partir ou de voltar.

Passa a vela e vai-se embora
Passa o tempo e vai também
Mas meu canto ainda te implora, morena
Agora morena, vem!

Chico Buarque

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Além sorrisos


Sozinha, entre si e o seu destino, caminha pesadamente por caminhos desconhecidos, cruzando-se com gentes de todas as formas, raças, atitudes, comportamentos e bizarrias. De um lar de contentamentos instáveis e momentâneos, na infância sempre marcada pelo rural, seus olhos muitas vezes se desviaram para o além, o que está para lá do horizonte na esperança de encontrar seu caminho, o seu talento, o seu futuro, a sua esperança.
Estudou, separada dos pais muito amados, viajou. E diante de livros e cadernos muitos, ansiava subir para ver o que sua visão nunca alcançara, mesmo que se esforçasse em bicos de pés e esticasse o pescoço para sorrir ao belo desconhecido.
Crente da bondade, pontapeada foi várias vezes, mas seus desígnios mantiveram-se sempre. Já de si seus característicos amigos, alguns falsetes, outros mais verdadeiros, que por toda a vida a cercaram de lágrimas ou risos cúmplices, de todo o apoio lhe valeram. Decidida do seu papel no mundo, julgando sua obra necessária, brilhava em si uma paixão enorme pelos desconhecidos e sofridos.
Alice, doce nome a chamavam, em apelos, em socorros, em ciladas, em cinismos. Sorri bela e honesta! Que te faz chorar? O que lhe parecia dificultado, à medida que sua consciência afinava: sonhar alto demais, um sonhar turbulento, complexo, feito de mil obras, de mil fins, de mil vitórias. Mas tentaste sempre, mesmo quando o mundo te puxava para trás e te dizia, entoando em teu peito sons fúnebres, que serias incapaz, que não havia forma de se ter tanto, nos tempos correntes.
Malas de novo postas em partida para novos poisos, vacilaste e temeste o que não conhecias? Nunca! “Alice, acautela-te que és simples e muitos há capazes de te corromper!” – “Tranquilize, sei como actuar!” E passeaste-te debruçada sobre as costas que te pesam e te magoam sobre a “Brasileira” e num soluçar comoveste-te com o teu maior ídolo. Quiseste sentar-te com ele, beijar-lhe as faces, abraça-lo e aprender a riqueza de si. Mas apenas viste uma estátua. “Conheceste-me, Fernando? Achas que caminho bem? Responde-me, por favor!”, mas apenas ouviu ruído, muitas vozes entoando um zumbido agressivo, feroz e sonoro que te fez pensar onde estavas e de onde partiste! A discrepância! Sorriste! Continuaste a caminhar, sozinha agora, sozinha de todos. Vês além um jardim que tenta imitar a natureza selvagem que conheces tão bem e te acercas descansando teus ouvidos e costas curvadas. Ao longe um rio, imenso e poderoso te chama a si. Sem mais, sem hesitar, caminhas agora a passos largos, esquecendo-te das dores que carregam teu corpo. Sentes a brisa, gaivotas revolteiam pelos ares, cortando-os, rasgando-os, deixando um rasto de pureza dispare. Fechas teus olhos e sentes o que para ti mais te completa, sentes-te tão calma, confiante, capaz de caminhar sob a água e te misturar aos peixes que se juntam a ti e brincam contigo. O sol doseia teu rosto branco e magro e bebes sua luz, roubas-lhe seu calor… Tornas a olhar o além e vês sorrir quem muito te diz, que nunca conheces-te mas te zela a cada passo que dás. - “Avó, obrigada! Amo-te! Terás orgulho em mim, prometo!”. Numa rocha desgastada te sentas com gentileza e passas as mãos pela areia que cobre teus pés. – “Será esta a minha nova terra? Ou será apenas por breves momentos de uma passagem relampejante?” Que importa, Alice! Algo nessa nova terra te guarda, saberás se é bom ou mau, mas fará parte da tua narrativa, da tua tentativa de alcançar o incansável. Estás mais próxima, sem duvidar jamais, mas o quanto desejas… Vida perfeita, de todos e quaisquer sonhos realizados, aprende que nunca poderá dar-se em ti ou em qualquer outro ser! Vive o momento, luta sempre e nunca baixes o rosto a nada nem ninguém, pois que teu valor está dentro de ti, escondido nos recônditos do teu ser paradoxal. Sorri, Alice, sorri! Sorri e vive apenas!
04/11/2008

domingo, 2 de novembro de 2008

Teus olhos castanhos










Teus olhos castanhos
De encantos tamanhos
São pecados meus.

São estrelas fulgentes
Brilhantes luzentes
Caídas dos céus.

Teus olhos risonhos
São mundos, são sonhos
São a minha cruz.

Teus olhos castanhos
De encantos tamanhos
São raios de luz.

Olhos azuis são ciúme
E nada valem p’ra mim
Olhos negros são queixume
De uma tristeza sem fim.
Olhos verdes são traição
São cruéis como punhais.
Olhos bons com coração
Os teus, castanhos reais.

Francisco José

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Bela e Doce


De seu olhar doce, sobranceia o luar e respira fundo aquele que sonhara ser seu mundo e que a cada hora a desilude. A estrela mor, naquela tarde de Verão, ondeia por entre seus cabelos de oiro os primeiros raios solares. Será ela mais brilhante que o Sol? Olho de soslaio, para ambos, e não vejo como distinguir. De olhos fitos na água daquele mar, que da mesma cor te embeleza o rosto, vi uma lágrima de sal escorrer até ao mar se juntar. Serás tu a figura humana de Mar, que trazes contigo no olhar azul cristalino? És certamente, sua irmã. Mas que tua doçura causa aos tristes e cinzelados, invejas, ódios e traições, e por eles, com alma maior, sofres e perdoas de coração em apertos deliciados. Serás tu a Bondade personificada, jóia rara? És certamente igual em valor a um diamante, em estado puro, não manipulado por nenhum malfeitor, que brilha e encanta todos os que de vaidade se decoram, desejando ser como tu és.
De rosto aveludado, brancura principal, olhar para ti faz bem; faz bem a quem está triste e a quem consolas sem nada em troca esperar. És tão serena! Como invejo tua perfeita forma de ser… tão especial, tão honesta, tão simples, tão humilde, tão doce! Tua presença aquece e enternece; tua ausência oculta e escurece.

Que o tempo, por anos desejados que se somem, nunca te corrompam, pois da tua raridade peça igual será novamente feita, teu brilho jamais se desvendará em nenhum outro ser… Deixa aqui, num mundo que não te merece, os teus frutos: primeiro as tuas obras, marcas e ajudas positivas aos que sofrem e depois os teus rebentos. Que sejam mais de dois, pois que melhor mãe como tu, melhor exemplo, melhor caminho a seguir não existe. Enche de sapiência os teus mais amados, e dá-lhes tua melhor sabedoria. Ensina-os que neste mundo as armas, a soberba, a vaidade, a ganância, a luxúria, a raiva e inveja apenas servirão para cavar a própria desgraça e que a amizade, o Amor, a generosidade, a justiça, a pureza, a simplicidade e humildade faz dos pequenos grandes, faz dos pobres ricos, faz dos infelizes almas sãs.

Minha querida, que de toda a falta que me fazes, me consolas o peito saber que a ti Deus te abençoou com maior e melhor dom: a Felicidade. E te deu como suplemento infalível deste, o Amor. Que o saibas aproveitar e bem-dizer pois que tens tudo que na Vida se deseja: és maravilhosa, amas, és amada, e serás muito, mas muito Feliz, Doce amiga. Tua amiga Clara que de amor te fala e te recorda.

Eu sei que vou-te amar









Eu sei que vou-te amar
Por toda a minha vida, eu vou-te amar
Em cada despedida, eu vou-te amar
Desesperadamente, eu sei que vou-te amar.

Em cada verso meu
Será p’ra te dizer
Que eu sei que vou-te amar
Por toda a minha vida.

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua, eu vou chorar
Mas cada volta tua há-de apagar
O que esta ausência tua me acusou.

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida.

Tom Jobim

Run








(…)
I ran from the noise and the silence
I run to the sky
Out of the lake
Into the rain
I run to the forest
I ran to the trees
I ran and I run
I was looking for me
I run to the cemetery
And the earth took me in her arms
Her decay
I ran and I ran
I’m still running today.

Madonna