terça-feira, 30 de setembro de 2008

Lady Di


Diana Spencer, filha mais nova de um casal aristocrata, com linhagem nobre tanto pela parte da mãe como pela parte do pai, era uma criança tranquila, simples, introvertida, de sorriso tímido, incrivelmente modesta e sensível. Beleza inconfundível de seu olhar azul céu, cabelos loiros, esbelta, alta, elegante, eis a mulher famosa que se tornou e que encantou multidões por todo o mundo.
Filha de pais que se separaram quando esta tinha apenas sete anos, fruto de uma infidelidade por parte da mãe, sofreu muito aquilo que foi uma completa falta de amor e carinho transmitido e expressado alguma vez pelos seus pais. Viveu uma infância infeliz e jurou para si mesma ser ela capaz de construir uma família feliz e unida, ao contrário da sua experiência familiar de primeiro grau. Valorizava muito o casamento, o ter filhos, uma vida a dois pacata, uma entrega total à família, uma verdadeira mulher, no sentido mais ancestral do termo.
Em criança e adolescente o que mais apreciava era a dança, nomeadamente o ballet, e sonhava ser artista, cantora, ou pianista. Também era fabulosa no desporto tendo conseguido algumas medalhas.
Embora fosse filha de nobres, ela trabalhou como uma mulher normal que procurava independência e realização pessoal. A sua última profissão foi como Educadora de Infância, onde todas as crianças a adoravam, colocando-se ao seu nível, brincando com elas, revelando um sentido apurado e inato de afecto maternal.
O Príncipe Carlos, após ter terminado o namoro com a irmã mais velha de Diana, apesar da diferença de idades, criou-se entre eles um enamoramento. Diana estava extremamente apaixonada pelo Príncipe, suas mãos transpiravam sempre que o via e seu rosto corava de vergonha e acanhamento. No dia 6 de Fevereiro de 1979, o Príncipe Carlos pede a mão em casamento a Diana ao que esta, de tanto o amar, não podia de forma alguma recusar. O namoro era aparentemente feliz quando se apresentavam juntos em público, mas Diana sempre soubera do Amor que Carlos sempre sentira por Camilla.
O casamento ocorreu na Catedral de São Paulo em Londres, numa quarta-feira, no dia 29 de Julho de 1981. Ela irradiava beleza, especialmente naquele dia, mas já no período de namoro enfeitiçava as câmaras e o público que muitas vezes a preferiam a ela do que ao Príncipe Carlos. No meio da década de 1980, após o nascimento dos dois filhos do casal, as ausências do Príncipe eram cada vez mais frequentes e a solidão de Diana cada vez mais insuportável. Afinal, aquele conto de fadas que imaginara para a sua vida, de casamento feliz e sólido, gozando da alegria de construir uma família, não passara de um ideal, de um sonho, de uma fantasia que nunca viu realizada. Entre vários conflitos maritais e traições de ambas as partes, os príncipes de Gales finalmente separaram-se a 9 de Dezembro de 1992. O divórcio foi finalizado em 28 de Agosto de 1996.
Apesar dos escândalos e polémicas geradas em torno de Diana, certo é que ela se destacou, na monarquia britânica, pelo apoio a projectos de caridade, em campanhas contra a SIDA e contra minas terrestres, tendo ido a Angola e Bósnia como voluntária do Comité Internacional da Cruz Vermelha. Diana sempre revelou uma sensibilidade, empatia e generosidade fora do vulgar ao lidar com os doentes, dando sempre um carinho, um abraço, um aperto de mão, uma palavra de conforto, consolando aqueles corações tão maltratados pela vida.
Pois que a vida de quem é mais nobre de coração é sempre curta, falece num acidente automóvel, a 31 de Agosto de 1997, no apogeu da sua vida, aos 36 anos de idade, deixando dois filhos ainda pequenos por criar e educar segundo as suas regras do bem-fazer e da generosidade. O seu funeral, a 6 de Setembro de 1997, foi assistido por aproximadamente dois milhões de pessoas em todo o mundo, chorando-se copiosamente uma perda terrível, de um ser humano tão imenso, tão nobre e perfeito, que de tanta beleza, já por si só transmitia imensa paz, um calor humano incrível. Saberá Deus dar ao mundo mais princesas de igual perfeição à de Diana? Calculo que não, alma doce e rica!


30/09/2007

Evita


Provinciana, isolada e de sonhos elevados e firmes, de beleza singular, loira, pele cor pérola, um olhar doce, desejava ser artista em Buenos Aires, aquela cidade mais desejada. Pertencente a uma família pobre, criança abastada de pai, que não a perfilhou, mãe amante, trabalhadora e lutadora, vivia na esperança de vestir cetim, rolar-se em grandes salões luxuosamente decorados, ter um papel importante na sociedade… no fundo, ser reconhecida no seu mais íntimo valor.
Aos 16 anos, destemidamente parte em busca do seu sonho, indo até Buenos Aires na companhia de um amigo de família. De mala única na mão, com apenas umas pecinhas de roupa engomadas com amor pela sua mãe, passou fome, privações, sujeita ao vislumbre de homens sem escrúpulos, nunca perdendo a vontade de conquistar o palco, fazer representação, ser actriz. Eva passava o dia à procura de trabalho em rádios, revistas e, principalmente, tentando uma oportunidade no teatro e no cinema. E sempre conseguiu um papel secundário num filme, onde revelou a nu a sua não aptidão para a carreira de actriz. Mas esta oportunidade, embora nada brilhante, valeu-lhe o passaporte do conhecimento do então Vice-Presidente da Argentina, Juan Péron. Homem alto, de porte atlético, sempre sorridente, enfeitiçou-a no primeiro instante. Ela, como jovem bela, quase cintilante, atraiu Perón de igual forma.
Após um horrendo terramoto, em San Juan, 1944, Perón organizou um evento para angariar fundos para as vítimas do terramoto. Um ano mais tarde, poucos dias após as comemorações do seu 50º aniversário, Perón foi preso por ordem de Edelmiro Farrel, então presidente provisório da República. Desse evento houve uma grande contestação popular e Eva Duarte, seu nome de baptismo, já tendo um programa de rádio onde declamava versos, participava de rádio-novelas e falava sobre a biografia de mulheres famosas, mergulhou de cabeça numa campanha furiosa e desenfreada pela libertação de Perón. Dois dias depois e onze dias após sua prisão, era possível ver de novo, na fachada do Palácio do Governo um vulto acenando para a multidão de dezenas de milhares de simpatizantes, sorriso nos lábios, os dois braços ao alto. Era Perón! Livre! Pouco depois estabelece os laços patrimoniais e de Amor com Eva e pactuou-se ali uma sociedade de ideias e interesses que os levou aos limites do poder, da glória e da riqueza, culminado em ruína. Em 1946, Perón é eleito como Presidente - graças a Eva, à sua astúcia, firmeza, persuasão e entrega às massas populares mais pobres da Argentina – os “descamisados”.
O voto feminino, reivindicação histórica das mulheres comunistas argentinas, foi implantado por um golpe de voluntarismo de Evita. Defensora dos mais pobres, oprimidos, fragilizados da sociedade, era mais que a mulher do grande Perón, mais que uma benfeitora, mas a líder espiritual da nação argentina; quase uma Santa. Pois que ela operava milagres, através da sua voz conseguir unir o pobre e o da classe mais rica de forma a que lhes fossem satisfeitas as suas necessidades mais básicas de sobrevivência. Era uma luz de confiança, da possível igualdade entre classes sociais, um ideal de sociedade com poder económico devidamente e equitativamente distribuído.
A sua presença era magnífica, atraía pelo seu carisma, pela sua generosidade, pela beleza que possuía e ostentava luxuosamente, como sempre desejou… Vestidos em cetim, jóias e o seu cabelo loiro canudado, sempre brilhante e resplandecente.
Faleceu com 33 anos com um cancro uterino, rápido e fatal, tendo apenas sido líder política argentina durante sete anos, donde saltou da completa pobreza e anonimato para uma das figuras femininas mais mundialmente famosas. Incapaz de aceitar que estava a desfalecer de modo súbito, ainda acreditava poder ser mais útil ao seu povo argentino, idealizando uma vida longa em que pudesse ser capaz de fazer frente aos malfeitores da sociedade e dar poder aos pobres e miseráveis que ela tão bem acolhia em seus braços. Que génio humano, que generosidade, que alma perfeita!
A notícia da sua morte foi uma tragédia, um desespero geral, uma perda imensa, um pranto comum e ritmado de uma mesma dor, de uma tão grande perda… de uma Santa! Foi então embalsamada para ser contemplada pelo seu povo amado, para jamais ser esquecida.

30/09/2008

Quanto vale uma vida?


Pensa um pouco… quanto vale uma vida? Como quantificavas? Valeria um diamante? 100 diamantes? Um anel de ouro? Um carro? Um prédio? O mar? Diz-me o quanto? Dá-me um valor? Explica-me, antes de mais, que valor tem a vida?
Judeus mortos, incinerados vivos, em câmaras de gás asfixiados… Diz-me, e os judeus, quanto valem? Ou, na altura da Grande Guerra na Alemanha, quanto valiam perante os alemães? Teriam, quiçá, menos do que o valor de um piolho, de uma pulga, de uma mosca… Os judeus eram bichos a eliminar… E assim se passou, um extermínio quase total de Pessoas, mas que professavam uma religião e tinham características físicas diferentes do que era considerado o “ideal humano”. Valeriam menos por isso?
E a comunidade cigana, quanto vale para ti? Mais que uma pulga? Serão já uma espécie de baratas? Em que te são diferentes? Porque os espezinhas? És superior? Se sim, diz-me então: em quê? O que torna “uma raça superior”? Os costumes são diferentes, as roupagens também, a vida incerta também… Mas tornam-se inferiores a ti por isso?
E os de raça negra! “Malditos sejam”, por muitos que se remetem a imaginá-los… feios, escuros, sujos, lábios grandes, grossos, nariz aberto, olhos pequenos… Todos iguais! São eles a desgraça do país? Se são de facto, quanto valem para ti esses? Uma pedra tosca da calçada? Um pedaço de terra seca e infértil? Quanto valem? Em que se distinguem de ti? És superior? Em quê? Tens a pele branca, mais macia, mais bela, mais cintilante, és mais perfumado, vestes-te melhor, vens de melhores famílias… É isso? Será essa a regra?
E os chineses? Quanto valem? Vendem produtos que se vem a descobrir que são cancerígenos? Valem algum espaço em Portugal? Também são todos iguais para ti? Confundem-te? E tu, és superior em quê? És um vendedor sério, nada do que comercializas está de modo algum danificado ou poderá vir a ser alvo de um possível e novo descobrimento acerca das suas características menos saudáveis ao organismo? Tens a razão? A melhor capacidade de falar? És melhor entendedor? Serás mais inteligente? Averigua…
E a comunidade brasileira… que fama têm… Que valem para ti? Valem pelo prazer que são rotulados apenas saberem fazer de bem? Valem a aposta no seu trabalho? Valem o espaço que preenchem quando deambulam pelas Tuas ruas? Em que és superior a eles? És tu, português, mais trabalhador, mais honesto, mais fiel? Pensa…
E os jeovás? Te repugnam quando apregoam seu Evangelho, que é o mesmo que o teu, mas interpretado de forma diferente? Foges deles, quando os avistas de longe? Porquê? Também te sentes superior? Ao lado deles, em que diferes? És católico, nunca leste a Bíblia, mas és crente naquilo que ouviste falar acerca do Catolicismo ou que teus pais te ensinaram. Haverá religião superior? Quantos Deuses existem? Um ou muitos? Porque guerreiam então aqueles que, fiéis aos ensinamentos, crêem num Deus que tem nomes diferentes? Ter nomes diferentes, significa que é mais que um? Ou será que quererá tudo chegar ao mesmo… a um e único Deus?! Reflecte…
Porque te olhas ao espelho e como de pura ilusão te sentes mais e melhor que todos? Tens beleza maior? Tens inteligência maior? Tens qualidades humanas maiores? O que vales tu, meu amigo? Já te quantificaste? Por quanto te venderiam? Meia dúzia de camelos? Ou não haveria riqueza no mundo que pagasse o teu valor… já que és infinitamente valioso?
Porque há dias em que te olhas ao espelho e, pelo contrário, detestas o reflexo que vês? Perdeste o teu valor nesse dia? Nesse instante? Nessa hora? O valor permanece ou desgasta-se com o tempo, como as rochas áridas de uma praia? Os erros que cometes retiram teu valor? E porque cometes erros? Por ódio ou por Amor? Não terão perdão teus erros? E aquilo que fazes de bem, não valorizas? O bem que fazes sobrepõe-se a todas as tuas faltas cometidas no passado? Se errar é humano, perdoar é divino… E o perdoar, não são os outros que o terão de fazer, és tu que deverás, internamente perdoar-te a ti mesmo… aí estás a ser divino! Pois igual a ti no mundo não existiu, não existe, nem irá existir. És único, feito de perfeição e ninguém, por mais que tente e se esforce, se assemelhará a ti. Compreende-te a ti mesmo, a tua singularidade, olha para dentro de ti, descobre teu valor e depois dá aos outros o teu melhor, deixando a tua marca no mundo, quando mais tarde, naturalmente, desapareceres. E nunca esqueças que o valor humano está repartido por todos aqueles que conheces, convives ou ignoras. Cada um, de forma mais ou menos inteligente tem de saber dosear esse valor, aplicá-lo ao que na vida mais importa, a todos aqueles que mais precisam… Talvez assim o mundo fosse melhor, partindo desta consciência.


30/09/2008

domingo, 28 de setembro de 2008

Momento de Amar


Rapaz tímido, reservado, passeia-se pelas ruas desconhecidas de uma cidade anónima e perante si, entre esquinas e becos obscuros, depara-se como um anjo, uma bela mulher, de cabelos ruivos, olhos de um azul marítimo, de expressão aventureira e jovial. Travaram uma conversa banal até que, apesar da negação da atracção mútua, acercam-se um do outro e selam um beijo apaixonado e inocente. Como naquela cidade desconhecida apenas o rapaz franzino iria permanecer por mais um dia, eis que ele diz que quando tudo na sua vida estivesse resolvido, em termos de estabilidade económica, um emprego capaz, viria buscá-la para viverem seu Amor. Falou-lhe de uma espera de cerca de seis anos, crente no poder do Amor além tempo e espaço. Eram jovens adultos, cada um na faixa dos 24 anos, talvez…
Ambos, em vidas separadas geográfica e fisicamente, entre relações desafortunadas, ao acaso ou pela obra de um destino ditador, acabaram por se encontrar acidentalmente por duas vezes mais. E o que marcara o encontro inicial, marcava também os encontros fortuitos que se seguiram. Do segundo encontro, ele deu-lhe a sua máquina fotográfica, a sua maior relíquia e com ela tornou-se uma artista fotográfica, encantando multidões, com retratos, alguns deles, de momentos dos seus breves enamoramentos. Despedidas tristes, não faladas, pois que as palavras destroem qualquer encanto… Para quê fazer promessas de uma vida que ambos tinham como incerta e instável?
Então é que o Amor, nos breves instantes passados juntos, avolumava-se de cada vez que se viam. Ele, Ollie, naquele grande dia, travando lutas com seu pensamento que lhe fugia para junto daquela moça mulher, Annie, no seu grande apogeu em termos de oportunidades de carreira, foi incapaz de reflectir, foi incapaz de fazer valorar perante os outros as suas ideias originais, terminando de mãos nos bolsos, desempregado, como há seis anos atrás.
Ele que antes já tinha adquirido independência, falhado, incapaz e vulnerável, regressa à casa dos pais, mas com um propósito feliz a preenchê-lo: a Annie. Mais uma vez, pelo acaso acidental como ao princípio aparenta, preenchendo o silêncio e a sua inércia, cruza-se com uma galeria de arte onde lhe sobressai instantaneamente fotos… não quaisquer fotografias, mas aquelas que ele tinha partilhado com Annie, naqueles fortuitos encontros ocasionais nos últimos seis anos. Pertenciam-lhe, faziam parte da história dele, agora com os seus 30 anos de idade… ela estava ali, bem perto dele, mas onde?! Inacreditável! Desencontro imperdoável à sorte! Mas como cada história de Amor se pauta por certas parâmetros, a espera por vê-la, perto da galeria de arte, não trouxe contentamento… a espera propositada não era possível entre eles… o incerto neles se dissolvia melhor.
Procurou-a então na sua morada, que já conhecia do encontro anterior, 2 anos antes. Cantou-lhe uma linda serenata: “Sou teu/ Faço parte de ti/ Não há espera para o nosso Amor/ Quero-te agora aqui…”, enquanto ela, cabisbaixa e emocionada, ganhava coragem para dizer algo inesperado: “Ollie, adorei a música, mas estou noiva!” Teria a história destes dois seres terminado ali? Sim, certamente! Ele vivendo na casa dos pais, como há 6 anos atrás, nas mesmas circunstâncias de dependência, solitário, desajeitado e triste, e ela casada com outro, tendo filhos belíssimos. Teria o destino desejado que tal acontecesse, depois de tantos cruzamentos inesperados e felizes? Ainda haveria tempo para os dois; para um “nós”?
“Annie, que se passa contigo?” – pergunta o seu noivo, estranhando o comportamento da sua bela e quase esposa, de uns dias até àquela parte. Ao que ela responde, surpreendendo-o: “Não quero mais casar contigo, John!”
Corre Annie, ele espera-te! Tentativas de contacto falhadas, morada desconhecida… Por favor, uma luz! A amiga de Annie, nesse dia tinha visto Ollie, mas como? Provando um fato de casamento?! Sim! Céus! Como é possível! “Annie, eu vi-o… ele vai casar-se… desculpa dizer-te”. “NÃO !!!” – grita coração, quando da razão não encontras justificação para a vida!
Annie, ainda assim, repensa uma despedida última e consegue a tão desejada morada de Ollie. Em fronte à sua casa, trémula, consegue distinguir ambiente cerimonioso… avista Ollie de longe, este a trespassa com seus olhos, incrédulo! “Annie, como estás?” – “Bem!... Desculpa ter aparecido sem avisar… Desculpa, não devia ter vindo!”… e foge, derrotada, desesperançada, sem nada que a suporte, cambaleante até seu carro, pronta para um novo “refazer” de insustentáveis esperanças alimentadas até sempre.
“Annie, por favor!” – era ele! Beija-a sem mais nada dizer… ela olha-o estupefacta. – “Não sou eu quem vai casar, Annie, é a minha irmã! Há tempo para nós, sim, não mais te largarei grande Amor da minha Vida!”. Futuro Feliz viveram, apreciando o tempo único e que nos escapa entre os dedos, tão volátil.
Para quê esperar? Se Amar não tem hora, nem momentos certos, nem é um objectivo a atingir após o tudo conseguido? Vive-o já ou perdê-lo-ás… Histórias de Amor como esta só nos filmes cor-de rosa!... Não resta tempo… o amanhã já é tarde demais! Vive e ama enquanto te for ainda possível fazê-lo!

Clara Conde
28/09/2008

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Raiva









Egoísta auge da solidão
Em periferias deslocada
Atirada em nada ambição
Felizarda cilada retirada.

- “Porque desejada em ambição
Nunca facilidade atingida?”
- “Porque sorris em solidão
Alma sem chama perdida?”

- “És fome, miséria, nua perdição
Consumida em chama branda
Desgaste na imunda sudação
Repeles o amanhã, desvendada!”

- "Que sobra de ti, fanfarrão?”
- "Sonho Amor trabalhado
Sólida postura erguida…”
- "Gigantes terrores, rebelião!”

23/09/2008

sábado, 20 de setembro de 2008

Longe do Mundo








Eu não sei se Vais ouvir-me
Se Estás aí ou não
Eu não sei se Compreendes
Esta oração.

Se eu para Ti sou uma estranha
Que o coração perdeu
É ao Ver-Te que eu pergunto
Se já Foste como eu.

Longe do Mundo
Mas perto de Ti
Peço conforto
De quem eu fugi.

Perdida, esquecida
Eu oro aqui
Longe do Mundo
Mas perto de Ti.

Peço conforto e nada mais
Na voz dos que sofrem
Pecem sinais
Vêem de longe
E chegam por fim
Quem vai ouvi-los?
Quem sofre assim?

Eu não sei se Vais Lembrar-Te
De um coração tão só
Coração tão vagabundo
Oh! Que perde e chora todos os dias!

Longe do Mundo
Mas perto de Ti
Peço conforto
De quem eu fugi.

Venho de longe
E chego por fim
Quem vai ouvir-me?
Chama assim.

Perdida, esquecida
Aqui a orar
Longe do Mundo
Mas perto de Ti.

Sara Tavares

Avança Herói, avança!


Encontrei-te submerso em pensamentos, de rosto cálido, as mãos fronte ao rosto, aspecto desgraçado, desprezado e perguntei por ti, pela tua sorte, pelo teu pesar. Olhou para mim, de olhos humedecidos e incrivelmente envelhecidos no paradoxo dos seus 24 anos e me diz que viver é como arder devagarinho numa fogueira acesa, de que o mundo não se revia nele, nem ele no mundo, que existe uma profunda tristeza pelos outros, por si mesmo, pelo que as pessoas hoje são e que tanta vergonha sentia de tão vulgares serem.
Cobri-te em mantas quentes, te afaguei nos meus braços, te disse que a caminhada, desde que seja TUA, tem valor singular, que viver só, desamparado é duro, mas que antes isso do que remar junto de uma maré pela qual não te revês, pela qual não te completas. Abracei-te e senti que te sentias melhor, lenta e pausadamente com as minhas tão simples palavras de consolo, de tentativa de te fazer renascer, de ter fazer sobreviver, massajando esse coração ferido e das chagas que te criaram em teu rosto, nas tuas costas, nos teus pés, nas tuas calejadas e tão ingénuas mãos. Fica comigo, lhe disse eu, crê em mim, crê em ti acima de tudo, que és humano nobre e tens valor, mesmo quando todos te apedrejam dizendo que és canalha.
Meu filho, ergue esses olhos e enxagua-os no meu manto, lava esse rosto da água impura, abre um sorriso e caminha em frente. Bem vês que lá ao fundo está o pôr-do-sol. E ontem um arco-íris se formou diante de ti, e nem assim soubeste perceber o que ele te queria ofertar e significar: “És igual a mim, tens magia na alma, brilho no olhar, após o pranto vês cores imensas, mais escuras e mais claras, conforme teu coração se reflecte, mas tens um encanto só teu, ninguém no mundo será igual a ti, és matéria-prima em única obra de arte concebida; não te percas de ti!”
Porque (vira-se ele para mim, incrédulo, confuso, indefeso, tão incerto no apalpar do desconhecido), o mundo está assim tão desnutrido? Porque é que sinto que tudo que me cerca é errado, incorrecto, injusto? Porque me vêem apenas com os olhos, deixando de me olhar para dentro da minha alma e assim melhor me avaliar? Porque fazer o bem tem sempre um preço? Que mundo, MEU DEUS!?
Retorqui de voz doce que respostas certas nunca as conseguiria dar e que as melhores respostas estão guardadas no seu coração, que a busca da felicidade em vida mundana e corrosiva não é tarefa fácil, que a felicidade não se resume a coisas, a acções, a comportamentos, a conquistas materiais. Leve os anos que levar, a essência da felicidade será sempre a mesma: Amar os outros. Daí ele olha-me de soslaio, não acreditando nas minhas palavras e exclama furioso: “Mas como amar os outros, se são os outros que me pisam, me magoam, me ofendem, me fazem sofrer e chorar?”
Meu filho, atenta nos meus olhos e entenderás. Aqueles que te magoam, que me molestam, que te traem, precisam de alguém que os acolha, porque estão também perdidos e estão a deixar-se levar pelos ventos contrários do mal, porque esses causam menos pesar, mas vão arrancando do peito as virtuosas qualidades humanas. Eles de mágoas te pedem que lhes estendas as mãos, os abraces e beijes sua ira. Porque a perdição é muita e há sempre quem exista ainda neste poço de humanidade, aqueles que rejeitam a caminhada da manada… como tu, meu filho! Tu és feito de igual matéria, de igual amor, te dei ao nasceres o livre arbítrio, poisando-te sobre as mãos angelicais da meninice, o bem e o mal, o amor e o ódio, a bondade e a maldade, a felicidade e o infortúnio. Tu escolheste e caminhas no caminho que tracei para todos, mas que apenas tu e uns poucos outros perceberam os meus sinais e persistem na batalha. Porque caminhar em plano correcto é mais árduo, mais cansativo, mais penoso, mais árido, mais faminto, mais tempestuoso do que caminhar no plano errado, no plano da imperfeição. O mundo se constrói do que cada um quer ser… pena a maioria optar pelo mais simples, pelo mais confortável, pelo menos heróico, pelo mais curto e menos virtuoso. Mas tu és tu, e tens de lutar, caminhar descalço pelo plano que te adormece as pernas, te queima os pés, te rompe os tecidos, te sangra as mãos, te entorpece os movimentos, te deixa cair tantas vezes sobre joelhos calejados e feridos. Achas tu capaz de o fazer? De seguir por este caminho, que tem sido o que agora percorres, mas que agora ao caíres te afundas em questões retóricas e infundadas? Achas-te capaz de tanto?
O rapaz mostrou então um sorriso são aberto, tão doce, tão calvo, tão sereno, tão santificado e responde: “Que por piores os tormentos, piores as quedas, piores os ferimentos, piores as dores, piores as cicatrizes, vou continuar por aqui… o caminho da Tua luz”. Lhe digo, lacrimejando num emocionado alívio: “Bendito sejas, em ti mora a raridade do mundo, doce humano verdadeiro!”

Clara Conde
20/09/2008

Perfeição









Se crês em ti quando te rejeitam
Se te angustia o mal dos demais
Se sorrisos em lágrimas brotam
Se aceitas a dor que enlutais.

Se no poço vil te afundam
Se da injúria te debruçais
Se da tua pureza te enganam
Se amor és ante os sentimentais.

Se em calçada te esmagam
Se do teu bem-fazer, enfadais
Se teu pranto àqueles alegram
Se amizades em vão esperais.

Se és só olhos que muitos avaliam
Se és a ostentação que desdenhais
Se és quem perdoa os que erram
Se és traço recto nos vendavais.

És antes nascente onde te inspiram
És antes norte onde ensinais
És antes flor onde te cheiram
És antes exemplo que vós outros cobiçais!

19/09/2008

Não Ser









Chorei por ti
Nobre vagabundo
Porque és do mundo
Por todos esquecido.

Esfera do não ser
Mundo perdido
Desgraça do espezinhado
Invisível envolvido.

Como à morte sorrir?
Desgraçado desventurado
Do social desaparecido
Crueldade aniquilado.

Vida, que serves?
Se crias o fragilizado
E amaldiçoas o isolado
Te acercas, desvirtuado?

Dedicado aos “Sandros”
19/09/2008

sábado, 13 de setembro de 2008

As Regras da Sensatez








Nunca voltes ao lugar
Onde já foste feliz
Por muito que o coração diga
Não faças o que ele diz.

Nunca mais voltes à casa
Onde ardeste de paixão
Só encontrarás erva rasa
Por entre as lajes do chão.

Nada do que por lá vires
Será como no passado
Não queiras reacender
Um lume já apagado.

São as regras
Da sensatez
Vais sair a dizer que desta,
Desta é de vez!...

Por grande a tentação
Que te cria a saudade
Matas a recordação
Que lembra a felicidade.

Nunca voltes ao lugar
Onde o arco-íris se pôs
Só encontrarás a cinza
Que dá na garganta, em nós.

Rui Veloso

domingo, 13 de julho de 2008

Traçado Recto










Nascida de raiz em Amizade
De braços envoltos na Família
De olhar crente sob a Comunidade
Coração no mundo em alegria.

Sonhar missão na mundana realidade
Ter em mãos testemunho d’harmonia
Pacificar a mais cruel infelicidade
Amar aquele que devolve agonia.

Sem espaço me encontrei nesta irmandade
Onde sem destino correm com ânsia
Esquecendo-se do outro, sem solidariedade
E de traições se enche o ego em euforia.

Ao que o bem faz com angelicalidade
De esforços sem fim mundo melhor cantaria
Ao que mais crê na cristandade
Mais provações e misérias passaria.

Mas percalços do bem contra a maldade
Vale sempre a pena sorrir em ironia
Longa a jornada de sofrida emotividade
Quando no último segundo reluzia.


13/07/2008

sábado, 12 de julho de 2008

Promessa










Nascer com conhecido mandamento
Dar ao mundo o que já perdeu
Lutando satisfeita até cumprimento
Anos de maus enganos cedeu.

Encantos em olhares disfarçados
Malsins que te querem prender
Febris de te destruir inspirados
Pois que és só, ante tanto mal-fazer.

Inflamado coração em despeito
Da causa em todos corrompeu
Sentindo seu caminhar injusto
Chicote sangrando me bateu.

Cruz caída aos pés humilhados
Desistência da promessa de viver
De dar Amor aos debruçados,
Inexistentes, só em mim meu perder.

12/07/2008

Pranto









Cegueira em anos vitoriosa
Tua alma sombra distante
Falso Amor em erros poderosa
Sem fim solidão, isoladamente.

Vida em trilhos lacrimeja
Constante procura de abrigo
Insuportável fado almeja
Peito em apertos antigo.

Sorte que partiste desastrosa
Até de ti me encontro ausente
Gente ao redor ingloriosa
Perdida em desespero, nervosa.

Apartada do que encoraja
Amor, amizade, aconchego
Caminhada de angústia aleija
Quem do nada está seu apego.

12/07/2008

sábado, 28 de junho de 2008

Perdida










Espinhosos labirintos
Cercados de cansaço
Cumes altos
Vales em tropeço

Cicatrizes em rostos
Dores de inchaço
Ilusões de pensamentos
Limite no puro acesso

Destinos incultos
Quem nasce no poço
Tentativa d’ elevamentos
Inocente moço…

Teus cumprimentos
Terás percalço
A passinhos indispostos
Teu manto, vivaço!

Clara Conde
28/06/2008

terça-feira, 17 de junho de 2008

Perspectivar a Morte


Nascemos no seio de um ventre materno, acolhidos na mais fina plumagem, aquecidos com amor, habituamo-nos a rostos mais significativos, nossas lágrimas são secadas, os choros afagados e, embrulhados num crescimento espontâneo e cada vez mais vigoroso esquecemos da essência da vida. Viveremos com algum propósito? Porque nascemos e vivemos? Nasceremos para morrer? Uma única experiencia de conhecer o mundo, sem que daí resulte nada de importante? Que nascemos ao acaso e depois da morte, entregues à terra, tudo ali acaba?
Prefiro pensar que a vida tem um propósito, que nascemos, cada um, com uma missão a cumprir, algo que devemos construir aqui, deixando um legado positivo aquando do nosso fim. Que se há vida, há uma tarefa, que cada um tem que deixar marcas positivas no mundo, ou pelo menos, experimentar-se neste palco, conhecer os seus limites, as dificuldades humanas, a felicidade… virmos até cá para sentirmos! O mundo todos nós o fazemos da forma que mais apreciamos, e se este se destrói e corrompe, os únicos culpados somos todos nós… nós enquanto filhos, enquanto pais, enquanto amigos, enquanto trabalhadores, enquanto avós… porque todos somos capazes de nos influenciar mutuamente, e se houver espírito de entre-ajuda entre todos, ninguém se corrompia, ninguém corrompia o mundo. Se todos nós soubessemos ouvir a voz interior, a que vem do coração, aquela que apenas sussura bem baixinho, aquela que chamam de “consciência”, saberíamos escolher o caminho certo, da rectidão de comportamento, da máxima dos valores humanos e espirituais, sermos pessoas melhores, mais ricos.
Pois que todos temos uma tarefa e missão a cumprir, imposta à nascença, há aqueles que na aprendizagem de mais sabedoria, têm missões mais duradouras, mais ásperas, mais dolorosas; outros há que têm missões curtas, que deixaram o seu cheirinho pelo ar e se foram para parte incerta. Missões leves e pesadas, curtas e prolongadas, há que saber aceitar que ninguém é eterno e que, mais importante que a presença física, é a presença espiritual, guardarmos uma pessoa dentro de nós por toda a eternidade, recordarmo-la no nosso coração e cultiva-la de amor. Porque, fisicamente, pela imperfeição humana típica, erramos e magoamos os que mais amamos; deixamos que o tempo passe sem que valorizemos cada segundo passado com uma pessoa querida, aprendemos a trivializar as situações, os momentos, a julgar que a vida é eterna, que há ainda muito tempo para gozar da companhia de quem gostamos e, quando nos apercebemos, perdemo-la. Mas espirituamente, temos sempre a imagem daquela pessoa, o seu sorriso, a sua alegria, a sua maneira de ser única, os momentos recordados num recanto de relíquias no nosso coração, e assim permanece, sempre jovem, bonita, saudável e feliz até que a nossa memória também se esvaia e dê lugar à morte, única certeza. E assim se processa, em ciclo vicioso, perpectuando a presença já não existente uns dos outros durante anos a fio. Passamos a memória para os filhos, os filhos para netos e a memória, quando de amor se trata nunca se desgasta com o tempo.
Saibamos aceitar a lei da vida, aquilo que por mais que a ciência e inteligência humana evolua, por mais que a cirurgia plástica faça maravilhas e milagres, nunca, jamais, conseguiremos fugir à única certeza que temos – a morte. A nossa morte, a morte dos nossos familiares, dos nossos amigos, dos nossos maridos/esposas, dos nossos filhos, netos… Cumprida a missão, que ninguém, por mais que tente saberá exactamente qual é, partimos todos, entendendo que até lá há que valorizar mais o tempo passado com os que mais amamos, não perdermos tempo com mágoas do passado, aprender a amar todos, perdoar, ajudar a caminhar quem está perdido e dedicarmo-nos mais aos outros e fazermos por, nesta breve passagem de vida, construirmos um mundo melhor, com esforço uníssono.

Artística forma de Ser


Inovador e muito pessoal esta maneira de pensar que existe uma artística forma de ser, ou uma personalidade artística. Aqueles que sonham acerca de ideias, que facilmente se abstraem do real, que vivem insaciáveis, que cobrem seu coração de palavras recordadas, gestos sentidos, momentos eternos, pessoas inesquecíveis, e as pintam em telas, em papeis com esferográficas, num piano, num órgão, numa escultura.
Ser-se voltado para a arte, é sofrer, porque maior parte das vezes são pessoas com uma sensibilidade refinada, doces criaturas, que sofrem por si, pelos outros, pelo mundo que os rodeia. Que vivem em agonia, que nunca são verdadeiramente felizes, pois que a felicidade não vem só deles, vem de todos que conhece e aprecia. Ama e afeiçoa-se com facilidade e vê nos outros sempre a pureza infantil de uma criança incapaz de provocar qualquer dano… e sofrem tremendas desilusões, porque o mundo embora corrompido, não é encarado dessa forma, porque se o fosse, se o olhar fosse objectivo, a pessoa deixaria de ter motivos para sorrir, para sonhar, para escrever, para recitar, para pintar, para ensaiar, para esculpir… Porque é sempre um desejo eterno viver num mundo perfeito, com pessoas perfeitas, onde a paz reina, onde tudo é belo como nas telas pintadas, onde o sol reina todo o ano e todos são vistos de igual forma e semelhança. É uma vontade de fazer mil escolhas, cada uma onde se emprega tantos mil carinhos e cuidados, é querer, sonhar diversas, inúmeras, indecifráveis e incalculáveis formas de chegar até aos outros e lhes dar um carinho no momento certo, é querer reanimar o mundo morto e torná-lo rico em jóias humanas, é querer ajudar a todos descurando de si mesmo.
É um querer falar, sem ter voz, nem boca, nem vontade, nem talento; é um escrever desabafo, palavras que de soltas confundem outros tantos, alegram outros demais, entristecem outras sensibilidades, desprezadas por tantos outros… a maioria! É querer falar, é querer alertar para aquilo que o mundo parece não saber, é querer chegar a todos, de mil formas, e dar-lhes um rumo, uma vocação de vida.
É aquele pensamento que até no sono mais profundo não pára e dá voltas e voltas, sonhando mundos belos, cultivando flores inexistentes, é fazer do pensamento instrumento de cultivo e viver na eterna solidão, de si para si, pois que raros são os que padecem desta artística forma de ser, raros são os que compreendem, raros são os que acompanham os pensamentos sem considerarem tolice… Tristeza de viver num constante sentir de só viver, refugiado em si, no seu canto, em torno do seu mundo, impenetrável, desconhecido, inviolável, puro, redoma fina que tece as linhas do pensamento e do sentir, tão dispares de todos, que esconde o ser real, que pincela as telas, se manifesta em encenações, em esculturas, na escrita… no olhar! Já tão pouco visto, observado, pensado, reflectido, questionável! Todos aceitam todos, mas ninguém aceita nenhum a não ser ele mesmo.
Confusão de estar rodeado de pessoas, que se alegram com tua máscara de alegria, que se sentem cativados, lhes despertas encantos mil, mas o teu ser, esse sempre encoberto, a ninguém desvendas. Sofres enquanto escutas as vozes de amigos, sofres enquanto reúnes família em convívio, sofres por não poder falar, pela tua boca não servir aos ouvidos de ninguém, sofres pela incompreensão do social, sofres o infortúnio de não te reveres num mundo tão insano, sofres por desejares o que em tuas mãos e acções únicas jamais poderá ser conseguido.
Apelas aos outros, tentas fazer-te compreender… latim gasto, em palavras que nunca parecem ser vindas de dentro, palavras que de si são supérfluas, leva-as o vento, não carregam em si o sentimento do coração de quem as pronuncia, não expandem a alma, não indicam a realidade sonhada de um ser estranho, de um ser solitário, de um ser que aprendeu que só pode contar consigo para todo o sempre, pois que de tamanha singularidade, ninguém o poderá compreender e afagar.

Futuro das Novas Gerações


Se às novas gerações, crianças e jovens de agora, se diz estar o futuro do mundo, nunca será perda de tempo pensar em como elas se caracterizam, para assim estimarmos o mundo de amanhã, que a maioria de nós, que lê este artigo, já não verá, mas de qualquer forma, idealmente, nos deveria inquietar, por desejarmos que nossos rebentos vivam no melhor que o mundo e a sociedade pode dar.
Alunos que maltratam professores, meninas de 12 anos grávidas, rapazes de 14 anos a fumar tabaco, marijuana ou até mesmo já heroína, filhos que batem aos próprios pais, lhes levantam a voz, por vezes até usam um pouco de chantagem emocional para conseguirem o que querem (i.e., “ou me compras produto X ou me mato”) … e tantos outros casos, que todos conhecemos e lamentamos sempre que as nossas memórias se deixam flutuar para um passado em que havia respeito pelos pais, total obediência para com os professores, respeito pelos mais idosos (modelos de sabedoria), em que havia uma moral muito mais vincada que se reflectia tanto no modo de vestir, como na forma de falar, como nos comportamentos sexuais e outros e que, infelizmente, nos tempos que correm, parecem ter evaporado.
Haverá culpados? Perdoem se firo alguma susceptibilidade, mas há um culpado principal de todo este degredo social estar a acontecer – a educação, principalmente dos pais e, secundariamente, dos professores. Porque ao contrário do que se possa pensar, a educação, embora possa acontecer na escola, onde os alunos passam grande parte do seu tempo, isso não implica que os pais descurem do seu papel essencial de educadores de uma geração futura que, com certeza, todos queremos que seja o mais pacífica e harmoniosa possível. Na escola também se aprendem muitos valores sociais e os professores, de hoje em dia, têm que saber dar-se ao respeito, não usarem a forma de autoritarismo de “laissez faire”, pois estarão a prejudicar os alunos que leccionam, em primeiro plano, e seus filhos ou netos, em segundo plano. Pois que todos nós nos influenciamos uns aos outros, um acto de alguém repercute-se mais tarde noutro alguém, pode não ser no mesmo momento temporal, mas a médio/longo prazo ele chegará até nós. Por isso, não sejamos egoístas, pensemos que somos um todo, e não apenas um só, com actos puramente individuais, sem haver uma teia social onde tudo se circunscreve, o bom e o mal que fazemos.
Pais, reflictam nos seus comportamentos, quem impõe regras em casa? Vocês, como pais, ou serão já os vossos filhos que, usando das mais diversas estratégias, vos usam para ter aquilo que querem, porque nunca foram habituados a ter como resposta um “não”? Nenhum pai é capaz de dizer que erra na sua educação, nem quero que me interpretem mal no sentido de que se tratam de maus pais, apenas quero alertar para o que fazem e para o que deveriam talvez mudar para que os seus filhos se tornassem mais obedientes e orientados para o social, já estruturado, mas que poderá vir a sofrer grandes alterações negativas (se é que já não sofreu), com a sucessão de maus exemplos e erros cometidos pelos pais, aqueles que melhor poderão orientar um ser que não sabe nada do mundo e que com regras e condicionamentos, se poderá tornar um melhor cidadão, um melhor filho, um melhor marido ou uma melhor esposa, um melhor trabalhador, uma pessoa melhor, no sentido mais lato.
E saber bem educar o que é, afinal? Porque sei compreender que muitas vezes se peca por desconhecimento e aí não há qualquer culpa a colocar a ninguém. Educar é saber dirigir, impor regras, estabelecer horários, uma rotina diária, deixar bem claro quem “manda” e quem deverá ser “mandado”, saber dar gratificações nos momentos de sucesso, mas também lhes retirar regalias quando não cumpre os seus direitos como filho, como irmão, como aluno, como pessoa em sociedade. A punição não é a melhor solução, mas por vezes, há momentos que tem que ser usada, quando a criança extrapolou todas as barreiras do bom senso. De qualquer forma, deverá evitar-se. Doi mais retirar uma regalia durante uma semana ou quinze dias, do que propriamente levar uma “tapadinha” na cara. O importante é saber, enquanto pais, demonstrarmos que mesmo enquanto estamos a punir um filho nosso, o continuamos a amar e que por mais erros que cometa, são a felicidade das nossas vidas. Fazê-los ter amor próprio, dar-lhes oportunidades de mestria nas áreas que revelam ter mais talento, uma recompensa pelos sucessos, um beijinho, uma palavra meiga, muitos carinhos. Desde criança, o essencial é sempre ensiná-los aquilo que rege toda a nossa vida e pela qual nos devemos sempre guiar: o Amor! Amem os pais, os familiares de forma mais alargada, amem os amigos, amem a comunidade, a sociedade, o mundo e mais importante que tudo, que se amem a si mesmos como ponto principal e, quiçá, mais difícil de concretizar.

Anseio de Ser Feliz


Afinal o que tanto procuramos na vida? Um bom emprego? Um bom carro? Casar com um marido/esposa carinhosos, inteligentes, trabalhadores, compreensivos, atenciosos? Ter uma bela casa, com vista para um jardim enorme, coberto das melhores e mais formosas e atractivas flores? Ter filhos educados, sempre correctos, os melhores alunos da turma, queridos por toda a comunidade? Ter muito dinheiro, para poder gastar em viagens, em luxúrias, em ouro, em roupa de marca, em perfumes dos mais famosos? Ter boa saúde, bons médicos especialistas, os melhores do país ao nosso alcance? Ter prestígio social, ser afamado, bem falado por todos; ser o herói da região?
Desafio colocar estas questões a todos quanto leiam este artigo para que reflictam se, realmente, a FELICIDADE se encontrava aqui, caso fosse possível responder afirmativamente a cada uma das perguntas.
Pois há quem goze no mundo de todas estas prestigiosas bênçãos, mas eu perguntar-lhes-ia, se me fosse possível fazê-lo, se são felizes, sabendo de antemão que as respostas seriam negativas, ou, por uma questão de viés social, dissessem enganosamente que sim.
Pois então, o que poderá faltar para que a felicidade seja possível a estas pessoas em particular, e a todos nós em geral? Vivemos uma vida tão carregada de ideias, de projectos, de anseios, de objectivos, de ambições, de stress, que nos esquecemos do que afinal, ambicionamos REALMENTE do mundo, da vida. Seriamos felizes com a ostentação e todos os bens materiais possíveis? Quem assim pensa, nunca esqueça que o homem é um animal que nunca se satisfaz, e que quanto mais tem, mais quer, e o limite é o infinito. A ambição corrói-nos por dentro, porque vivemos só para mostrarmos aos outros quem somos, o nosso estatuto, o nosso dinheiro, para que nos invejem. E será bom sinal invejarem-nos pelo que temos à vista de qualquer um, ou seria melhor que nos invejassem por aquilo que riqueza nenhuma no mundo compra: a riqueza interior. Pois que esquecemos que viver não é adquirir bens materiais, mas sim adquirir bens espirituais, ou seja, aprendermos com os ensinamentos e muitas vezes durezas da vida, as qualidades maiores de um ser humano: ser solidário, ser simpático, ser humano, ser imparcial, ser humilde, ser simples, ser honesto, ser sensato, ser capaz de perdoar, ser sincero, ser integro, ser afável com o rico e o pobre, ser fiel a si mesmo e aos seus princípios.
Religiões várias, que em guerras envolvidas, naquilo que loucamente chamam a tentativa de alcance da paz, todas elas são boas, todas elas nos trazem ensinamentos acerca do bom viver, todas são formas de socorro em momentos de aflição, todas querem que vivamos a tal chamada FELICIDADE, que de tão extensa sintacticamente, igualmente revela a dificuldade enorme em a alcançarmos.
Pensemos que somos todos filhos de Deus, criados à sua imagem e semelhança e que cumprimos no mundo os seus desígnios. Somos criaturas como ele porque a cada um deu um grau de perfeição e santidade e é através de nós que ele quer que saibamos o que é sentir a tristeza, a agonia, a amargura, a inveja, a cobiça, a gula, a luxúria, a alegria… E ao experimentarmos cada um destes sentimentos, estamos a oferecer-lhe a oportunidade de ele saber o que é de facto ser-se humano. E não é ao acaso que vivemos aqui, num mundo que se vai degradando com os anos, é para que aprendamos não só o que é isso de se ser feliz, como alcançar, através de vitórias e derrotas, sabedoria suficiente para ensinar às próximas gerações que a terra é para se amar e estimar, pois que é finita.
Podemos também pensar que Felicidade não é mais do que o alcance de um tal estado de espiritualidade que nos torna sábios. Se há quem pense que vivemos vidas várias, também poderá pensar que se o fazemos é com o propósito de em cada vida ou etapa da existência termos a oportunidade, uma vez mais, de nos tornarmos cada vez melhores, como pessoas, a nível de espiritualidade. E então aí, após vidas sucessivas em que experimentamos as mais variadas condições humanas, de pobreza, miséria, riqueza, alegria, tristeza, amargura, dor, sofrimento, poderemos alcancemos um dia o patamar máximo de “perfeição”. Daí, se repararmos, encontrarmos-nos com pessoas que cruzam nossas vidas e que nos apercebemos que são mais ou menos maduras em termos de riqueza espiritual, comprovada pelos seus comportamentos, pela sua maneira de estar, pela sua personalidade. Há aquelas que recorremos para nos aconselhar, que nos cedem paz que, no nosso inconsciente, gostamos de pensar que são anjos, já que nos adivinham pensamentos, sentimentos e nos cedem ajuda na hora e momento oportunos, como se adivinhassem o que vai em nós. Outras pessoas há que, imaturas, jovens, novatas neste palco de experimentação de vida múltipla, corrompem, não são capazes de perdoar, magoam sem sentir dó, são egoístas, procuram e fazem mal aos outros… Mas de facto, quem segue este rumo, nunca é feliz. Se te cruzares com uma pessoa que se vangloriza, se auto-elogia, se cobre de fantasias, demonstra uma estranha dureza face à vida e face aos problemas, que se esconde numa máscara de aparente felicidade, de boa sorte em todos os sectores da vida, sorri o sofrimento dos outros, ou pisa quem chora, essa pessoa é quem mais sofre e quem mais tem problemas de auto-valorização pessoal. Grande parte das vezes, os mais felizes são aqueles que encontramos na rua, vestidos com modéstia, com empregos precários, com uma família sem riqueza, mas que trazem no olhar um brilho fantástico, facilmente reconhecível pelos mais atentos, que esboçam um sorriso perante uma flor, um pássaro que por ele passa a chilrear, uma árvore que se debruça para o acobertar do sol, um carinho de uma criança, um rebuçado que dá, um aperto de mão que cumprimenta, um abraço apertado e amado cada dia à sua esposa… é esse quem sabe que ser-se feliz está no que a natureza oferenda, nos impulsos mais insconscientes que seguimos, num olhar, num momento, na ternura do silêncio, no escutar o ondear das ondas numa praia, no escutar o vento batendo na nossa janela de casa, cumprimentando-nos, no sol que espreita todas as manhãs, convidando a apreciá-lo. Ser feliz não é mais que AMAR a nós mesmos, amarmos os outros e amarmos a Natureza. Tão simples, tão doce, tão leve, tão gentil, tão passageiro, este sonhar ser feliz, quando em nossas mãos está o caminho…

Ser-se Psicólogo


Não apenas uma profissão… mais uma missão… missão de existir para escutar, ajudar, animar, dar afecto, compreender, interpretar. É desequilibrada, o peso de quem padece se transporta para aquele que, como psicólogo, foi treinado para bem ouvir. Ingrata profissão, não és apenas um, és todos aqueles que a ti se te dirigem, na desesperança, na agonia, no desespero, na loucura, na solidão major. Carregas ao ombro tantas cabeças destorcidas, tantos corações sós, oprimidos, traumatizados. Carregas a dor de todos, e ainda assim existes tu, a tua vida própria, por vezes tão ou mais desesperante mas que despercebida passa por todos que tentas apoiar. Psicólogo nunca tem problemas, assim julgam todos, não é apenas amigo, é psicólogo; não foi destinado para desabafar o que sente, por mais graves que sejam seus problemas, por mais difícil que seja sua vida, apenas serve para socorrer gentes pobres de amor. Um psicólogo guarda escondido em si sua alma, pois que vive a vida apenas dos outros e a sua é sempre descurada. Psicólogo tem que saber agir, porque estudou, sabe que métodos há para sair do poço, para evitar o naufrágio, sabe os erros que comete e sabe como corrigi-los, mas nunca no mundo digam que existem psicólogos perfeitos. Mas porquê? Profissão que aniquila um ser humano que está por detrás, o afasta, o desvaloriza, o impede de falar, de gritar, de sentir, sofrer, rir e ser feliz. Em momentos amargos, iludido, procura alguém para abrir sua alma tão pobre de amor-próprio, tão sedenta de carinho, tão tosca como obra de arte desistida e encontra de lá a incompreensão, a falta de um ouvir atento, o minimizar do sofrer. Porque não é correcto nem sensato pensar que um psicólogo tem problemas… um psicólogo é como um caixeiro viajante que carrega em si o peso do mundo e com isso, mais a sua dor, caminha a paços cambaleantes e trôpegos, pelo mundo, onde nunca lhe é permitido errar, nem ser feliz.Felicidade haverá contudo, quando psicólogo se é por vocação, quando existe uma entrega total ao outro, aceitando, como um seminarista tornando-se padre, votos de castidade e resignação. Quando de consciência se actua, ignorando o próprio ser, é-se feliz por tão só ver a felicidade dos outros, por fazer com que de uma ruína humana abandonada, se construa um monumento triunfante, belo, equilibrado e enaltecido. Jamais alguém, por mais que faça, que construa, que se esforce, por mais dinheiro que possua, por mais “amigos” que tenha, por mais sucesso profissional que obtenha, por mais “amor” que sinta de todos os conhecidos, felicidade não existe assim. A felicidade existe da comunhão com os outros, da entrega aos outros, da entrega total do amor que temos em nós. Então se assim é, todos os psicólogos são pessoas altamente felizes, não poderão desejar mais, porque o que todos anseiam anos durante a vida, eles o têm, se cumprirem as regras da profissão e tiverem vocação para ajudar o próximo. Será isto verdade? Paradoxalmente, então, como uma pessoa pode reunir em si mesma dois estados antagónicos: a máxima felicidade e a máxima tristeza de todas as almas que carrega? Não é feliz, nem totalmente triste. Vive num vaivém, onde as vitórias em psicoterapias bem sucedidas dão ânimo, mas por outro lado, visto como perfeito e sempre feliz, nunca consegue um apoio quando falha na sua profissão ou tão somente na sua vida privada, que a tem de facto, embora ignorada.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Florescer


Henrique, voltado de costas para a janela do seu quarto, para os raios de sol que rebentavam com toda a sua força e calor sobre os seus membros, fixava os olhos no chão, reflectindo os seus dezassete anos. Um adolescente perspicaz, sensível, meigo, com alma de gigante, tinha entretanto motivos que lhe entristeciam o olhar. Educado de forma rígida, extremamente correcta, onde a liberdade estava entre extremos limitada, mas onde o Amor existia, embora envergonhado.
Henrique perguntava-se que rumo à vida dar, o que tem como missão viver, o que significa caminhar, o porquê dos objectivos.
Aluno do 12º ano, onde as escolhas são obrigatórias, onde a ânsia aumenta, onde o futuro, essa palavra tão banal, mas igualmente tão irreal, tão “inconcreta”, é decidido, onde se julga depois de tomado um rumo, a rota não mais volta atrás. Dezassete anos de uma vida serão suficientes para que boa decisão do que há de mais precioso – a vida –, seja traçada? Oh, que responsabilidade! Sentia-se num beco sem saída, encurralado, perdido, desanimado, sem saber o que fazer e, mais que tudo o resto, desamparado!
Vida escolar cruel! Rotulado através de um número, por cada professor (detentor de sabedoria), de cada disciplina, muitas delas enfadonhas, aborrecidas, inúteis! Para quê tanto estudo naquilo que, no essencial da tal palavra fatal – o futuro – será irrisório?! Revoltado! Testes infindáveis, avaliações supérfluas das reais capacidades, motivação não estimulada, apoio encoberto… Dezassete anos! Para além de um desajuste entre ele e os colegas; eles excêntricos, perversos, infantis, desmemoriados das consequências dos seus actos para o tal… futuro! Ele maduro, por circunstâncias de vida formado, vivendo num mundo de leves, brandos e criativos sonhares, ilusionista de ideais, criador de personagens, em rascunhos de livros desenhados. Poucos amigos, talvez, mas do melhor! Desejaria mais, mas o mais é indecifrável… o que será que precisaria para lhe encher o seu tão precioso coração?
Um Amor longínquo, não dito, não verbalizado, colado à garganta durante tempo suficiente para sofucar… Ela mais velha, mas de una maturidade igualada! Em tamanha perfeição a pintava, suavemente a pincel, nas profundezas do seu coração e no invisível do seu pensamento.
Alma, num sumar, perdido, destroçado e na essência, sozinho… Um sozinho por entre tanta gente, como Luís de Camões tão bem soubera dizer. Assim ele era, Henrique, um génio recolhido, alma pura e angelical incompreendida. Tão doce ser!
Paixão pelo regresso a Inglaterra, o sonho maior, para além da arte em palavras escritas em livro, quiçá, publicado.
Certo dia, naquele em que reflectia voltado sobre o sol, uma ideia sua alma encheu. Pensou:”Serei eu um idiota? Hum… Os resultados nos testes não são muito famosos, tenho de confessar, mas… meu amor inglês, a Inglaterra sonhada, como os conquistar? Paixão existe apenas em livros, certo é, porque não aprofundar, recriar, fantasiar, dar asas às palavras, colá-las em folhas, projectos empreender… Será que do fazer o melhor que se sabe se atinge o outro patamar, esse caminho mais penoso que é saber o que o futuro (que palavra tão densa e saturada) me é capaz de dar? Serei capaz? Tentarei!” – sorriu e voltou-se nesse mesmo instante para o que o sol lhe oferecia, cerrou os olhos, emocionado porque, naquele tão insignificante de pureza momentâneo soube o que era viver! - “Viver é desfrutar este sol, sentir o seu calor, desfrutar o que meus olhos de belo podem ver, sentir a ligeira brisa fazendo cócegas ligeiras na face, ver a luz que cada pessoa emana e, a partir daí, seguir por um caminho”. Imaginou a vida como uma árvore de tronco forte, enraizada ao solo, carregada de flores e frutos, pesada, densa, alastrada pelos seus imensos troncos, cada um mais fascinante que outro mas, do esplendor, a sombra se via que a árvore produzia sob si mesma. – “Serei sombra? Serei luz? Luz, claro que sim… LUZ! E uma luz tão pura como o sol, tão natural como ele, que dá vida!” – comoveu-se, tão amável Henrique.
A partir de então, todos o comentavam: “Que se passa com o Henrique, parece que ganhou nova vida!” E de facto, verdadeira mudança, igualmente estranha de tão repentina. Que vivia nele, dessa aparente mudança? Soubera, finalmente o rumo que daria à sua vida: estudaria com quantas forças tinha, as avaliações seriam bem mais positivas, impressionaria os outros, os seus actos alegrariam aqueles que mais ama, terminaria o 12º ano com distinção, o nunca idiota, sempre genial, iria partir para Inglaterra e do sonho viveria na realidade, enfim, submisso sempre a um papel e a uma esferográfica deslizando em qualquer folha, recriando mundos belos, fantasiando perfeição, semeando alegria e amor sobre todos.
O fatídico 12º ano passara, enfim. Que esperar de Henrique além da fadiga? Belíssimos valores, na pauta da sua escola afixados, espantando todos, invejando muitos, alegrando de orgulho mil tantos outros! Conseguiria média para ir para qualquer curso, para o fazer em Inglaterra!
Provas dadas e concretas tinha dado a seus pais que, sem argumentos, envaidecidos, na hora de comunga alegria e tristeza, acenavam um “Adeus” saudoso na partida de avião de Henrique, a caminho do seu futuro – Inglaterra amada! – “Me aguardem, não chorem, como me custa ver por meus olhos húmidos essas lágrimas naqueles que mais amo; sorriam, sou tão feliz! Hei-de marcar meu espaço, sobrevoar paisagens alegres e tristes conforme a lei da vida intocável e cumprirei meu destino, meu único destino – ser GRANDE!” Como assim ser grande? – “Amar o próximo, amar a vida, as plantas, o ar que respiro, o sol que acaricia minha face, as aves que em cânticos me aplaudem, criar laços, semear alegria, caminhar sobre o Destino que, embora traçado, requer sempre algum esforço de nós para o cumprirmos”.
Nobre Henrique, anos passados na sua Inglaterra, cultivando as flores no jardim do seu coração, agora com 30 anos, e 8 de casado, famoso escritor, conceituado, de ideias originais, eloquentes, quantas vezes conferenciava, alegrando em palavras a enorme plateia! Um génio da Arte de melhor viver! Futuro alcançado, sempre atingido… alegre partia em visita a Portugal, revendo seus pais; saudade!
“Como te amo meu filho!” – palavras melhores que qualquer prémio ou honra, depois de tanta luta, de tantos anos de ausência passados, em ternos beijos e abraços pronunciadas. “Meus pais, amo-vos tanto também! Que saudades senti de vós!” Pais embevecidos, engoliam agora as palavras ternas do filho quando este, com tamanho entusiasmo, lhes contava as tão belas façanhas e tão grandiosas obras que, em país distante, conseguira.
Ao anoitecer, junto àquela janela onde tudo se revelara, no seu antigo e sempre seu quarto, chorou de alegria lembrar que a vida de tão irreal, tão íngreme, tão aparentemente dura e pré-destinada, trás até nós tão belas surpresas, tão reconfortantes alegrias quando, de dentro de nós, nas maiores profundezas do nosso ser, arrancamos a coragem, vontade e o iluminar necessário para a agarrar com força e dela fazermos esboços que com os anos se adensam em traços firmes e com gentileza toda a vida é um triunfo, desde que nós saibamos quem somos, para onde vamos e o que temos a dar aos outros nesta passagem breve de missão terrena.

06/05/2008
Para ti maninho!