terça-feira, 8 de maio de 2012

Mãe Mela


Recordo-me de ti nos dias frios de Inverno, nas terras altas da Beira, avançando no carro, aflita, para me levares a tempo para a escola. Lembro-me de estar doente e ter-te sempre por perto, preocupada a acolher-me e levar-me ao médico, sempre atenta. Lembro-me de fazer excursões na escola e de chorar ao despedir-me de ti e de regressar cheia de saudades, apesar de apenas me ter afastado algumas horas. Lembro-me da preocupação em que nada me faltasse, alimentação, roupa, material escolar. Lembro-me dos teus abraços quando chorei e dos desabafos que trocavas, confiante em mim. Lembro-me de estares comigo nas principais mudanças da minha vida até me tornar adulta. Lembro-me de ti quando estudavas, durante horas da noite, até bem saber todas as matérias, com uma calma e paciência infinitas. Lembro-me de quereres sempre saber de mim junto dos professores, atenta a que fosse evoluindo no meu processo escolar, confiante que eu seria capaz de progredir. Lembro-me de te aventurares comigo nas exposições de pintura, de me ajudares na sua realização e de antes, na papelaria, me enalteceres diante de todos como a filha talentosa e pintora. Lembro-me de me acompanhares à natação, de me esperares nas aulas de condução, apesar do frio e do cansaço. Lembro-me de estares comigo de cada vez que me acidentei e de sofreres comigo sempre que a dor me perturbava. (…)
Deste-me muito, minha mãe, e é bom saberes que jamais esquecerei! Muitos pais há que nunca fizerem nem metade do que tu fizeste por mim e sei valorizar. Agradeço-te tudo o que hoje sou, porque deve-se a ti, ao teu esforço, à tua luta e Amor. E todas as vitórias que hoje alcanço são para te felicitar, porque sei que ao ser um produto teu, também desejas todo o meu bem, o meu conforto, a minha felicidade.
Claro que nem sempre somos perfeitos e erros cometemos sem nos apercebermos do impacto negativo que causam aos outros. Já sofreste muito, por motivos outros que não eu, outros que eu própria os provoquei, revoltas que me invadiram em certos momentos negativos mas, quem ama perdoa e ambas nos perdoamos e nos amamos apesar de todos os males, de todos os momentos menos felizes, em que não soubemos agir adequadamente em função do sentimento que nutrimos uma pela outra.
E, quando coloco numa balança tudo o que vivemos, tudo que me deste, de um lado, e os momentos menos bons, do outro lado, sinto que pende sempre mais o lado positivo das coisas. Queria que soubesses que uma mãe não precisa nem deve ser perfeita e que, quando te demonstras frágil, eu aprendo com isso, ao ver-te a ti, ao rever-me em ti. Desejo, grandemente, que os anos te sejam meigos e te concedam boas graças, males menores e que vivas ainda muitos momentos felizes. Se a vida me aprouver, farei por te conceder, também, alegrias, como forma de gratidão.
Mais que tudo, desejo-te por perto muitos anos, porque és única, porque o teu carinho e atenção são necessários, porque nada há quem iguale quem és e o que representas para mim.
FELIZ DIA DA MÃE, MÃE QUERIDA! Adoro-te.
Tua filha Clara

segunda-feira, 19 de março de 2012

Pai Tui

A vida nem sempre segue o rumo desejado e no meio de tantos tumultos perdemos, em certa medida, o entendimento do objetivo que está subjacente a tanto desgaste e, por vezes, sofrimento. O dia-a-dia processa-se de forma ininterrupta, as crianças pequenas que um dia te pediram colo, agora já são adultas, já não precisam de um cuidado no vestir, no comer, na educação social… tornaram-se independentes (nem sempre financeiramente) e, como fruto de todo o crescimento, tiveram de seguir um rumo que, grande parte das vezes, foi diferente daquele que foi orientado, longe do berço, longe dos olhares atentos de um pai cuidador, que todos os perigos afasta… Obriga-nos, a nós filhos, a necessidade de saber mais, procurar novos horizontes, experimentar, até, as amarguras da vida, senti-las na pele, chorar com elas para depois, quando tudo serena, sabermos dar valor à felicidade, conseguirmos rir mais verdadeiramente. Certa vez, meu pai, li que é graças à tristeza que temos a honra de conhecer a felicidade, que é graças à miséria, que sabemos dar valor à riqueza, que é graças ao azar que sabemos dar valor à sorte… e por aí diante… só com o pólo negativo sabemos perceber intensamente o pólo positivo da vida!
Percorreste um caminho difícil e sei perceber que, com certeza, houve desespero em alguns momentos, aflição, tristeza imensa quando viste perder quem amavas, quando viste teus sonhos dissiparem-se, quando viste as filhas saírem de casa, quando viste tua esposa guerrilhar, quando te viste invadido pela doença… 
Mas, é por tudo o que viveste, a sabedoria que alcançaste, que hoje és quem és; homem de honra e valor, respeitável (embora nem sempre respeitado quando a ignorância enche todo o ar que respiras) e, acima de tudo, quero sublinhar - és e sempre foste um pilar para todos nós e mereces, neste teu dia (que, infelizmente, não te vou puder abraçar, para minha angústia) e, a bem ser, todos os outros dias do ano, um OBRIGADA imenso.
Nunca nos abandonaste à nossa mercê, privaste-te de muitos bens pessoais para nos governar, ensinaste-nos para os bons valores, guiaste-nos nos momentos de agonia… em suma, deste-nos a segurança de que contigo podemos confiar; deste e dás-nos toda a segurança necessária para sermos capazes de enfrentar, ativa e altivamente, todos os perigos e dificuldades que constantemente nos vemos alvo.
A tarefa de ser pai, embora aparente seja desigual e assimétrica, pelos esforços constantes, pelo trabalho diário, pela postura firme em momentos de fragilidade, vendo bem é igualitária. Reconheço, pai, o teu valor e o quanto me tens ajudado nas preocupações. Sinto-te um apoio seguro, não vacilante (embora perceba que também sofres, também perdes as forças em certos momentos, também tens momentos de desesperança e vontade de fugir - mas que não te tornam frágil aos meus olhos) pela confiança que foste criando em mim, ao longo dos anos, pela construção do vínculo que nos une, que fortalece dia-a-dia, embora a distância impeça que mais demonstrações sejam feitas…
És Maior quando tens coragem para a mudança, não te rebaixas perante a solidão, te ergues, único, perante tamanhas dificuldades… me ensinas, continuamente, a ser, embora única e diferenciada, uma herança de ti, uma continuidade de ti, nos teus ensinamentos, na imensidão do teu íntimo e Amor.
Em mim, um fiel apoio, também sempre encontrarás, meu pai…
Adoro-te! Feliz Dia!    

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Eu e Tu

















Não que me surpreendesse aquele gesto tímido e mudo de aproximação, mas certo é que as emoções me invadiram e quis, aquela mais teimosa, a mais tenaz, a dita lágrima lavar-me o rosto e fazer renascer uma esperança, ainda muito ténue, muito desconfiada, muito reticente. E logo te li na reticência de um primeiro passo e assim avancei para o núcleo da multidão, mais seguro, contigo ao lado, quem será ele, o que quer, quem é, que mentiras esconde? Na ansiedade te ouvi e te devolvi únicos sorrisos e aquela dúvida do que me enchia a alma numa profissão desejada¸ não conseguida, tornada fingidamente sorridente em quiosque, acéfala. A simpatia brotou, nada mais, sem demais interesse, apenas o suficiente para permanecer responsiva aos teus pequenos passos, naquele que toca e nos acomoda. Surgiu o medo, invasão nunca, sofrimento pior, o que me queres, porque me falas, porque me prestas a atenções? Calaste-te, certo dia e enraiveci na semelhança com outros. Mais um. Mais um cansaço. Mais um “não és tu”. Não, voltaste chamando àquilo esquecimento nem primeiro nem último e que sim, querias continuar no limiar ténue do intertém conhecimento mútuo. Iremos sair, à noite, havia já ansiedade mas abriste-te em falatórios sobre o que não era do interesse daquele dia, daquele momento e fui, furiosa. Que estupidez ter de ouvir lamúrias! Porque me falas e te lamentas da lacuna? Se a queres, corre atrás, vai, não me faças perder tempo, se melhor não há, se os horizontes são tão estreitos, encontra-a e reconquista o perdido; não me tires o sossego da solidão com fantasias esperançosas irreais! Mas vamos falar sobre isto? Estou irritada, mas quero ir e aceito, sem me escapar nada, sou detalhística, não quero que me magoem, já fui triste, ninguém cuida. Cuidar? Queres cuidar-me? Emocionei! Nunca ninguém o fez, entendes? Porque me iludes? Que queres de mim? Já não tinha nada a desejar do futuro, tu chegaste e queres mudar o pessimismo? Um presente de aniversário, sem sentido, genérico e pouco encantador, obrigado surpreendido, esta rapariga é estranha! E rimo-nos mais. E estavas mais presente de semana para semana e o gostar foi criado, a sacrifício, não vá correr mal, como é habitual. Mas que fazer se queria cercado a mim? Vem à minha festa, vivo acolá! Lá vai estar, junto com amigos, tímido e reservado, poucas palavras, a ansiedade... Partiremos no dia seguinte e me cerca de beijos, quando em Cascais a primeira sinalética verde, afinal ela até deve gostar de mim; já à algum tempo... E continuaram até esse adeus, não vou esquecer os momentos, de ti, gosto de ti. Mútuo. Ansiedade na chegada, um abraço e carinhos no rosto, ainda permanecentes, tímidos e meramente amigáveis. Deixa-me fazer-te feliz? Eu sou a antítese da felicidade, ela nunca me habitará, de que me falas, desconheço. Não me emociones, não me encantes com finais felizes oníricos que nunca se realizam e o sonhar não me nutre mais. Está a desesperar, vai desistir, mas mantém-se os medos e foram eles vencendo as lutas travadas. Não fosse aquela maldita me voltar a seguir, aquela que sempre me perseguiu e derrubou sentires – distante de mim, jamais! Isso é tortura, não, não quero isso, terei de voltar para a gruta, no seio mal amanhado da mãe torturante e do pai passivo-agressivo. Não vou ser grande, nem ter lápides com o meu nome em parte alguma, nem escrever melhor e saberem-me mais, nem a psicologia me governar... irei partir para a escuridão e, certo é, o meu fim. E quem está no fim já não sonha; quem chora não sorri; quem perdeu, não anseia vitória. Estava entregue ao destino (?), mas com Leiria, talvez haja hipótese. Com ou sem saber ao certo, procura-me e toma tu a iniciativa, já que da minha parte não haverá. Não consigo, custa-me demais o incerto. Selaste-me num princípio a meados de Setembro, ainda quentes, num transporte vulgar quando naquele dia de praia se deu quase a mote, houve vontade, não houve coragem e a amizade permaneceu até aqui e daqui tomou outro rumo. Estremeci não da paixao, ainda, mais de temor. Era sede e saciação, medo e vontade, eras antagónico para mim, mas aceitei e tem permanecido perante socalcos, lágrimas salgadas, chuvas corrosivas de um passado que mói o presente tão pesadamente que, da felicidade e do cuidar que desejavas dar, assim o dás, sim, não na plenitude, no entanto, tal como eu. Não podemos mais... O cansaço continua a vencer, o nervosismo e o medo continuam a ser maiores que nós e o desânimo habita quando a distância me dói na saudade daquele olhar peculiar, espontâneo, que me ofereces e me embala o coração num Amor que insisto em fazer perdurar.



No medo da fraqueza,

Quando no auge do sentir,

Empenhaste-te numa certeza

Duas obras a esculpir.



Num cuidar de pureza

Como único a sobressair

Me invadiste na fortaleza

De um plural a construir.



Dissolve passado a clareza

Atos irreflectidos num anuir

A felicidade vira aspereza

Sem contacto no reagir.



Mas, quando Amor há beleza

E um caminho a fluir

Confiança nossa robusteza

De que juntos vamos conseguir.



AMO-TE




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Edificação

No domínio dos sentidos, em contacto feroz com o real, com tudo o que me cerca e ensurdece num olhar humedecido, rouco de saber misérias e exausto de busca do belo, permaneço, neste recomeço onde todo o aço é passado velho e ferrujento de um ácido corrosivo destrutor e de cimento de pesares e relectires. No alicerce encontrei fraquezas e tombares em uníssono, sobre mim, moles e pesados. Quando esgravato sob o solo, sobre a superfície plana, rochosa e oceânica, aquela madeira persistente, ao longe me chamam num aceno de fantasia, luminosos e chamativos, me cegam na minha solidao, me levam em busca de novas construções e me fazem crer no suporte. Mas quando me aproximo mais e os meus olhos alcançam a gestalt, reflicto desanimadamente que, afinal, se encontra humedecida e fragmentária, mais ou igual a mim, deixando de discernir entre os limites do meu ser e os do outro, agora tão próximo e importante. E ocorrem-me em todo um espelho de mim todos aqueles sentires esquecidos e colados de há tanto e não tolerando entraves, me invadem num total enfrequecer, numa total exposição, aberta aos perigos daqueles e dos outros, os que hoje sei e os que virão, todos até mim, em híman chamados na maléfica vontade de me envolver e sorrir diante da minha queda. Temo esses sentires, a fragilidade e o reflexo de mim, no íntimo, convertido ali, em instantes, num exterior aberto, sem reservas e pudores, medos e dores. Tudo o que sou diante deles, quando eles o usarão, quiçá, noutras má-aventuranças, em cumes de auto-sofrimento, convertendo o outro em alvo de tortura, aquele, aparentemente frágil, eu exemplo, o ideal para o afundamento, quando nele me escalo num alcance do alto. O medo imaginário chega a arrepiar num físico débil, fortalecido no interior, além da pele e dos orgãos, além dos sistemas e ciclos, além do coração e da alma, além da terra e dos vivos... na edificação do amanhã futuro, nas aprendizagens mestres e guias do limite, naquele que virá, certamente, rasurando em todos sorrisos e belezas sem igual, amores e pacificidade, condolências acolhidas e ódios abafados, esquecidos, na comunhão do património deles passados, num amor terno pais, casais, amigos, no respeito e enaltecer ele, o Grande ideal, real, vindouro após a destruição e aniquilamento do mal. Imaginário em auge, num apogeu cintilante daquilo que o desejo apenas alcança num ditar latente em sonhos e que no real se quebra em pedaços contra o humano criador de robustez frágil, num cimentar destruidor, num embater dorido e esquecido do principal e que nos guia. E quando a massa falta para alicerçar a madeira rota e corroída, em calcário em pó, jogado pelo vento sob um lençol de frio e no estremecimento congelas ao criar em torno de ti uma sem luz e apagão perturbador que te faz manter quieta, não vá o teu movimento ser percebido e magoar alguém. Os frágeis! Aqueles que assim construirão muros de betão em torno de si e, por vezes, do embalar compassado que nos medeia e agita, ora em fúria, ora em escassos embalares, fica cercado e se fecha à magia da auto-glorificaçao e linda escultura que espelhas quando te observas e autisticamente finges ouvir dizerem-te beldades que não sabes perceber, já que a tua linguagem foi outra, mais invasiva e poderosa no desequilíbrio do número mágico tão penosamente alcançado e descoberto e ferido, dilacerado. Agora é hora de construires o que falta, o vazio que alimentas em fomes insaciáveis, nas febres que curas e produzes, na vígilia que te põe em órbita labiríntica e no pavor que te entorpece os músculos e que, em caimbras te faz cair sobre o asfalto, que tomba sobre os teus ombros e assim tens carregado em acto solitário e heróico, hercúleo mas desvirtuado de toda a masculinidade, quando o feminino se avizinha tentador insuportável. Para isso existem os mestres experientes que te aconselham que métodos usar e medidas mais certas a cumprir para a obra se erguer, desta vez mais capaz, vitoriosa e vaidosa, esbafurindo chamas de luz interior, reconstruído mas tardio, edificado mas reáctil, pacífico mas defensivo, tal qual espero eu de ti, contigo aqui?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Jogo de Soma Nula

Habitamos um cerco cilíndrico patético em que, sem esforços do exterior, por intenção primária, nossa, decidimos valorizar a nulidade. Vamos até lá fora, num ambiente e país coberto de belezas e riquezas, paisagens e valores antigos, sabores e cheiros… na pacificidade de um avistar supostas alegrias e conquistas, mares norteados, nossos, bainhados e gentes… desvalor! Quando tudo o que ladeia te instaura a repugnância e a raiva, quando tentas lutar na maré acesa por uma paz desejada e merecida e mil barreiras te prendem a um barco naufragado, soluças o que há, que apoios existem, de que vale tanta labuta? Quando no berço houve castigos, quando crescente na injúria, quando batida foi a estima, quando os irmãos desprezam, quando a loucura se instala, quando a pobreza rouba, quando o dinheiro falta, quando o amor desconhece, quando a profissão falha, quando a valorização não existe, quando te rebaixam na glória dos estudos em apogeu, quando o materialismo te corrompe, quando a riqueza está na corrupção, quando os loucos dominam, quando a fraqueza é comédia d’outros, quando a luxúria ganha, quando os bons são pisados, quando a morte é precoce, quando a doença domina, quando os melhores têm migalhas… quando a paz é utopia!
Quando já nada mais há em ti que lágrimas sôfregas de tanto pesar, de tanto cansar, quando nada mais há que te prenda numa alcançável maratona sem um fim objetivado, quando te curvas perante todos para deles chibatadas devolverem, o que prevalece colorido, afinal? Derrotista, serei?! Farta, melhor! É tudo, ao meu olhar, terrivelmente doloroso! Não pertenço aqui, não me revejo nisto, nestes seres diabólicos, neste ambiente carbóneo e canceroso! Padecerei, sem mais remédio, de loucura quando nela, único refúgio da realidade, melhor fantasiada. Porque pesa tanto caminhar? Porque não me libertam? Porque tantos obstáculos? Porque tanta cegueira à felicidade? Porque o menos me domina, quando noutros tantos mais? Não há respostas, não há lógicas, não há racionalidade capaz de explicar o que me abandonou.
Quando nada mais há de glorio aqui, em ti único refúgio no olhar para dentro, mais belo, e te apaziguares. Quando lá fora guerras se instalam e bombas rebentam e sangue lacrimeja escurecido pelo tão pouco de humano neles.  Respiras fundo, engoles, dissolves, inventarias escapes, buscas o apoio raro e dissolvente e volúvel.
E nada há de teu aqui, cá fora? Única beleza na selvagem natureza onde te inspiras para prosseguir, em tropeços, mais um rumo, mais um caminho, mais um cansaço. Teus olhos tristes miram o que sobejou deste cíclico rodopiar patético e nem sempre há desejo de continuar. E nem sempre no ar o oxigénio existe para respirares, porque alguém outro te roubou e sorriu depois em troça perante o teu esvanecer. Nem no fim a solução possível e mais desejável, porque ele simbolizaria a cobardia de quem, por aqui nada conseguiu, nada alcançou, nada ofereceu, nada herdou e nada testamentou, já que a riqueza em ti ninguém a viu, quando o diamante valioso ninguém procurou descobrir, já que o pacote estava roto e gasto, erosivo e velho, fedorento e sujo, nojento e imundo. E na tristeza, esquecida, continuas mais um pouco, sempre mais um pouco, a custo…aqui.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Rute

A tua chegada aconteceu naquele momento de viragem em que supôs nunca o viver. Conhecia a face de penumbra que tinha aprendido a habituar-me diante de todas as passagens vivenciais acontecidas. Julguei, a certo ponto desesperado, deixar de crer no bom, na amizade, no cuidar, na dádiva e no amor. Tornei-me descrente perante a felicidade que advém e é produto do estar com um outro. E foste ficando, com igual querer de ambas, permanecendo aqui, nesta esfera cilíndrica, inicialmente tão fechada, tão ausente de arestas e janelas sobre algo maior – o meu mundo. Ditaste-me caminhos e me fizeste perceber diferenças nas ideações e reflexões sobre este jogo encantador e monótono que de tanto cansar, anima – a vida. Jamais a esquecer a surpresa da tua entrega quando, na aparente solidão de braços em riste, consegui ver, isolado, o teu estendido. O braço de quem, informalmente, em contexto reservado e sem maiores entregas, invejei no destaque do conhecimento, produto de trabalho, fonte de saber, que foi conseguindo acumular num todo imenso que faz de ti assim, Rute. Aquela que surpreende em momentos de evasão, na liberdade de um palmar o que a vida de bom tem para oferecer, sem demais entraves, com entrega maior, numa constante procura de prazeres, coisas e outros. Num tão singular flutuar, na simplicidade de um espaço, no cerne de tudo, no labiríntico desassossego de agitação que a compraz. No ditar limites, na severidade tão quebradiça de um sorriso, afinal, fácil, dócil, meigo… não no atuar, mas no comportar, no simbolizar através do ato, mais autêntico. No abarcar gentes, em reunião, em convívios bons, na aventura de conhecer outros, na facilidade do erguer da desilusão, tão admiráveis! Na ânsia do conhecer, infinitas horas noturnas, vespertinas, na sonoridade de toldadas mentes em queda sobriedade… um paralelismo dicotómico digno de arte, a bem ser retratado um dia, quando lá fora te fizeres sentir.
Eis que, rotineiramente, me fazias chegar com um sorriso e um embalo desapegado a confortar as insaciedades de uma descontente. Sem espera de retorno, descomprometido, um bruto querer. Agora, no hábito de ti, de te saber perto, agora que entraste aqui, no círculo infinito de desconsolações e de torbulências, não te consigo apartar mais. Permanece e continua, através da tua bondade, a guiar passos de uma petís... essa que, deste lado, em quilómetros poucos afastada, te recorda num misto de saudade e ternura, esperando o amanhã para te rever e te felicitar, estender-te o que de melhor tenho, um ombro, na retribuiçao do incalculável.
De todas as confidências, em ti deposito toda a veracidade, pelo acúmulo de beldade que vejo em ti e me alumia.
Muito Obrigada! Felicidades!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

História



De entre tamanhas relutâncias, ela enfim nasceu. Num ambiente, qual sereno e tranquilo... Ela, a dominadora, foi desejada para apaziguar o sacrifício e o amparo desejado. Nao fora destinada a grandes feitos futuros nem projetada num casamento com filhos. O carinho era inútil para quem seria a bengala e não o peluche acarinhado. Na mesa o essencial para o seu governo, num estômago pequeno e colado. O pior restava-lhe. Sofreu, sim, desamor e respeito, esse, nenhum. Quis, teimosamente, à rebelia dos seus grandes gigantes, crescer, amadurecer, ser alguém. E estudou. Conseguiu sucessos e, desse ânimo, foi caminhando até um alcance pacífico, que lhe traria a independência e a boa aventurança à mesa de uma casa sua. Seus cabelos negros, compridos, esvoaçantes e luminosos, num olhar igualmente breu e captador, ela o conheceu. Quem ele era? Rapaz bem visto, educado. Ele que perdera o seu seio em tortuosos dias, anteriores, de lamentos e sofreres, de um pai revolto e súbito, carregado de vícios mas também saberes numa mão engenhosa. Discórdias, falta de alento, o ser preterido aos outros, num total ímpar, nao foi feliz no ontem. Nela viu a possibilidade de ver clareados os seus medos e de ver terminados seus lamentos de tanto tempo companheiros. Apaixonaram-se. Loucura e saudade juntas dissiparam sobre eles sonhos que, perdidos, decidiram largar. Fantasias em que tu nao és como eu te vejo, mas agrada imaginar-te nos meus desejos e vontades corrompidos, à luz do meu querer. Cegos, casaram-se. Mas, afinal, quem és tu? Aqui ao meu lado. Foi contigo que desejei vida? Filhos? Nos enébrios e embevecidos momentos de lucidez ou no odor a éter, álcool, sabores sangrentos, circulando por dentro, de impulso negado, deram à vida um ser. A antítese das suas ânsias... era a serenidade angelical que desejaram para si. Dormia, no leito, suave respirar. Estará ainda viva? Frágil, branca, luzidia, clarão a seus olhos. Ela! Cinco primaveras e, nas noites frias de gelo enrigecido nos tetos da casa, ela, outra, chorou pela primerira vez. O oposto. O sobressalto. A agitaçao. O sono. A doença amarela, feia e revoltada. Insatisfeita no sempre. Mas que quer? Condolida. Em dor. És tu... reflexo de nós, no íntimo. Desdenho-te! Como te atreves despertar-me do sono da calma feliz com a primogénita? Cresceram sem amizade. Sem entendimento na diferença. Sem reflexo. Cheiro a adega até o susto abrandar. A doença mostrou-se, sem receios, diante dele. Agora, diz-lhe, cuida-me! Cheguei, sou tua e irei destruir-te, lentamente, num continuar anos que daqui virão.
Estou aqui e ninguém me vê. Nao percebes que desidrato numa sede de querer? Vejam-me! Tenho habilidades e sorrio inteligencia. Nao, asno, nao!!! Nao quero mais chorar essa palavra que me esgana aqui, onde mais doi. Abraça-me. Consigo-o se te ouvir e essa a estratégia usar. Porque elas são melhores e à outra, sem sangue, houve brinquedos tao dóceis? Deixai-me ir, agora, maior na coragem, para longe e de lá conseguir o necessário. Mas deparam-me ameaças, troças e mentiras. Amizades desejadas, o sol, a órbita, e amores desejados, satélites, apenas no imaginário vividos. Um sonhar aparvalhado quando nada no real agrada. E na utopia permaneceu até ao choque com aquele, hoje duvidoso, fez defrontar numa queda a pique com o terreno. Criou também dolorosas cicatrizes, vigílias, sobressaltos, ataques bravos e raivas sem alvo. Hoje, renovada no bem e mal alcançados, é diferente e, naquele abraço, a paz desejada num momento, em momentos, instantes no eterno de um segundo sorridente, num baloiçar embalado de felicidade sem um chão, duro ou suave, visivel. No amanhã saberei o rumo da história que há-de vir.